Tudo sobre o polêmico projeto do Presidente da Fifa Três das principais confederações de futebol do mundo divulgaram uma nota conjunta criticando a Fifa. Assinam o longo texto a Uefa (Europa), AFC (Ásia) e a Concacaf (América do Norte, Central e Caribe). O comunicado é mais um capítulo da guerra entre as confederações e a entidade máxima do futebol, presidida por Gianni Infantino. Gianni Infantino, presidente da Fifa Getty Images O texto, assinado pelos presidentes e secretários-gerais das respectivas confederações, é direcionado à "família futebol" e diz que o esporte cresceu nos últimos anos graças ao esforço de todos, e não ao mérito de apenas uma pessoa. Uefa mantém ameaça de boicote à Copa do Mundo e diz que perdeu confiança em Infantino Conmebol pede respeito a processo eleitoral na Fifa em meio à pressão da Uefa "O crescimento na última década foi real. Mas esse progresso nunca foi obra de um único indivíduo. Foi fruto da FIFA, das Confederações, das Associações Membro e das milhares de pessoas que dedicam suas vidas ao futebol", diz trecho da nota. "A força do futebol sempre foi a sua união. Apelamos para que essa união seja honrada agora, para uma liderança que sirva o futebol, e não que busque controlá-lo". No fim de semana, a Fifa havia emitido um comunicado em defesa de seu presidente e com recado direto aos críticos. Infantino vem sendo alvo das confederações depois que seu plano em criar uma empresa para operar os torneios da Fifa e vender ações dela foi exposto. O italiano já desistiu da ideia, mas segue sendo muito questionado. A Uefa, por exemplo, quer a renúncia de Infantino. Veja o comunicado da Uefa, AFC e Concacaf: "Querida Família do Futebol, O futebol é a maior paixão compartilhada do mundo. Não pertence a nenhum indivíduo nem a nenhuma instituição. Pertence aos jogadores, aos torcedores, aos clubes, às Associações Membro e a todas as instituições encarregadas de salvaguardar o seu futuro. É nesse espírito, como confederações representando seus membros, que nos manifestamos coletivamente hoje. O crescimento na última década foi real. Mas esse progresso nunca foi obra de um único indivíduo. Foi fruto da FIFA, das Confederações, das Associações Membro e das milhares de pessoas que dedicam suas vidas ao futebol. A expansão dos torneios, a atribuição das Copas do Mundo da FIFA de 2030 e 2034, a distribuição de recursos às associações. Essas foram conquistas compartilhadas, acordadas em conjunto e realizadas em conjunto. Não se trata de dinheiro. As Confederações já solicitaram a distribuição responsável das vastas reservas existentes da FIFA para fortalecer ainda mais o investimento no desenvolvimento das Associações Membro. Não se trata de nenhuma Associação Membro perder o apoio que conquistou, apesar do alarmismo dirigido aos nossos membros que sugere o contrário. Tampouco se trata de rever a expansão das competições, a distribuição das vagas da Copa do Mundo ou quaisquer outras decisões tomadas coletivamente. Essas decisões foram tomadas em conjunto e devem ser mantidas. Trata-se de algo mais fundamental: a integridade do jogo e a integridade daqueles que foram eleitos para liderá-lo. Liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de deter – ou exigir – poder. É um dever de serviço para com a família do futebol que a confia. Quando a confiança é quebrada por meio do engano, quando um indivíduo se coloca acima do coletivo que lhe confiou autoridade, esse dever foi abandonado. A recente carta da FIFA aos seus vice-presidentes e às 211 Associações Membro reconhece que erros foram cometidos no processo. Trata isso como uma falha de comunicação, quando o que o futebol testemunhou foi uma falha de julgamento. Uma proposta apresentada em um cronograma comprimido, sem consulta significativa, e apressada para um prazo final antes que as Associações Membro pudessem analisar adequadamente seus termos não é produto de um descuido — é produto de um plano concebido para limitar a fiscalização. Não reconheceu que a proposta em si era intrinsecamente errada. Permanece sem o reconhecimento de que a tentativa de vender uma participação na Copa do Mundo da FIFA foi uma profunda falha de julgamento — não apenas um deslize processual, mas uma quebra fundamental de confiança com as próprias instituições que a FIFA existe para servir. A FIFA também se comprometeu a apresentar um relatório completo sobre esses eventos ao Conselho da FIFA, mais uma vez falhando em reconhecer que a governança adequada diante de uma falta de discernimento tão profunda exigiria que tal revisão fosse conduzida por uma terceira parte totalmente independente, e não pela própria FIFA, seus funcionários ou qualquer outra parte interessada no futebol. A administração da FIFA não deveria ter qualquer participação na condução da revisão. Conforme correspondência anterior, todos os documentos e registos relevantes devem ser preservados de acordo com a comunicação da UEFA sobre a preservação de documentos. A própria carta da FIFA também confirma que apenas um dirigente eleito esteve presente na reunião de liderança em Marrocos. Nenhum membro do Conselho da FIFA ou das Associações Membro foi convidado a participar. Apenas o comitê de gestão, composto por funcionários seniores da FIFA, esteve presente. Esta recente reunião, na qual um seleto grupo de membros do Comitê de Gestão da FIFA — e não o Comitê completo — foi convocado para o exterior, em vez da liderança ir a Zurique para se dirigir ao coração da FIFA, seus funcionários, apenas reforça essas preocupações e representa a continuidade do mesmo padrão de conduta que nos trouxe a este momento. Não se trata da conduta de um guardião do futebol, mas de alguém que acredita que o futebol lhe deve satisfações. Há silêncio onde deveria haver prestação de contas, distância onde deveria haver transparência. Essas não são as qualidades que o futebol merece em sua liderança. É por isso que tomamos essa posição: não de forma leviana e não sozinhos, mas juntos e por dever para com o esporte que servimos. A força do futebol sempre foi a sua união. Apelamos para que essa união seja honrada agora, para uma liderança que sirva o futebol, e não que busque controlá-lo. Sinceramente seu, SALMAN BIN IBRAHIM AL KHALIFA (Presidente da AFC) VICTOR MONTAGLIANI (Presidente da Concacaf) ALEKSANDER ČEFERIN (Presidente da UEFA) DATUK SERI WINDSOR JOHN (Secretário Geral da AFC) PHILIPPE MOGGIO (Secretário Geral da Concacaf) THEODORE THEODORIDIS (Secretário-Geral da UEFA)". Entenda a crise na Fifa A Fifa divulgou na última quarta um comunicado oficial, pouco depois de o presidente Gianni Infantino se reunir com funcionários de alto escalão em Rabat, no Marrocos. Na nota, a entidade apontou que Infantino segue tendo o apoio do secretário-geral e do conselho de administração e que "não irá mais tolerar ataques à sua integridade, governança e processos e tomará as medidas necessárias para proteger seu nome e reputação". Presidente da CBF se manifesta sobre projeto polêmico de Infantino: "Sou um pouco contra" Uma carta foi enviada às federações nacionais com um pedido de desculpas e a promessa de que um relatório sobre o episódio será produzido para ser apresentado na próxima reunião do Conselho. Gianni Infantino, presidente da Fifa, desiste de criar empresa com capital privado para gerenciar a Copa do Mundo A atual crise na Fifa criou um cenário que até semanas atrás parecia improvável, o de uma oposição com chances de vencer Infatino. A ideia de criar uma subsidiária aberta a investimento privado imediatamente enfrentou grande resistência e foi criticada duramente por dirigentes do futebol mundial - principalmente a Uefa, confederação que reúne as associações da Europa. Os planos foram abandonados, mas a entidade europeia defende, agora, uma mudança na presidência da Fifa. Fifa divulga plano para venda de ações a investidores privados, e Uefa se posiciona contra Sindicato critica plano da Fifa em vender ações e diz que projeto foi feito "a portas fechadas" Europa anuncia boicote a torneios da Fifa até que proposta de venda de ações seja cancelada Chefe operacional da Fifa critica proposta de Infantino: "Projeto de uma pessoa só" Infantino corre risco na presidência da Fifa? Entenda o atual jogo político da entidade Em abril, o atual presidente anunciou, durante o Congresso da entidade, que seria candidato à reeleição no pleito previsto para o ano que vem. Naquele momento, três confederações declararam apoio ao dirigente: a Conembol, a AFC, da Ásia, e a CAF, da África - as três somam 111 votos, mais do que a metade necessária para reeleger o dirigente. Agora, com a oposição aberta da Uefa, com a Concacaf crítica e possíveis dissidentes nas outras organizações, há espaço para uma candidatura rival. Um dos nomes comentados é o do canadense Victor Montagliani, que comanda a confederação das Américas do Norte e Central e do Caribe. Uefa anuncia boicote às competições da Fifa. Mas como chegou a esse ponto? O presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, tem sido um aliado do suíço e conta com ele para tirar do papel a ideia de ampliar a Copa do Mundo de 2030 para 64 seleções, um projeto que traria para o continente 15 jogos além dos três já previstos para Argentina, Paraguai e Uruguai como celebração pelos 100 anos do torneio. O plano, porém, enfrenta grande resistência, especialmente na Europa. Entenda a origem da crise O presidente da Fifa, Gianni Infantino, saiu em três dias de todo-poderoso do futebol mundial a dirigente na berlinda na presidência da Fifa. O plano de criar a empresa Fifa Forward Enterprise (FFE) para a venda de ações a investidores privados fracassou rapidamente, e Infantino vive seu momento mais pressionado desde que assumiu o cargo. A ideia de Infantino era criar a Fifa Forward Enterprise (FFE), uma subsidiária com controle majoritário da Fifa e participações minoritárias de investidores. A companhia ficaria responsável por consolidar as operações das principais competições organizadas pela entidade, como a Copa do Mundo e a Copa do Mundo de Clubes. O objetivo era arrecadar até 4,2 bilhões de dólares (R$ 21,5 bilhões). A Uefa foi a primeira a se posicionar contra e anunciou que os 55 representantes boicotariam competições futuras promovidas pela Fifa enquanto a ideia não fosse cancelada. A Concacaf, que reúne países das Américas do Norte e Central e Caribe, e a Confederação Asiática de Futebol (AFC) também reprovaram a medida em notas oficiais. Uefa anuncia boicote a torneios da Fifa Com a impressionante rejeição e pressão sofridas, Gianni Infantino anunciou a desistência da criação da FFE na sexta, três dias após ter anunciado a possibilidade da venda de ações da Fifa a investidores privados. A Uefa, que reúne as federações europeias, defendeu abertamente a mudança na presidência. Mas Infantino tem apoiadores importantes, caso do Marrocos - uma das três principais sedes da Copa do Mundo de 2030 - e tampouco sofreu críticas por parte da Conmebol, confederação sul-americana de futebol e uma das mais importantes mundialmente. Amparado a isso, pode tentar se sustentar no cargo até março, quando haverá a eleição para tentar seu quarto e último mandato. O Conselho da Fifa pode convocar reunião de emergência para tratar da saída de Infantino caso 19 de seus 37 membros a solicitem. A distribuição dos 37 membros é a seguinte: nove da Uefa, sete da AFC (Confederação Asiática de Futebol), seis da CAF (Confederação Africana de Futebol), cinco da Concacaf (Confederação de Futebol das Américas do Norte e Central), cinco da Conmebol e três da Oceania. Infantino e o secretário-geral da Fifa, Mattias Grafstrom, completam o quadro.