A noite do último sábado encerrou qualquer fio de esperança restante, e o Confiança foi rebaixado para a Série D do Campeonato Brasileiro. Mas a péssima campanha na Série C não foi fruto apenas da derrota para o Anápolis. + Leia mais notícias do Confiança no ge Jogadores do Confiança perfilados antes do jogo contra o Anápolis Sérgio Luís/ADC Como em qualquer campanha de rebaixamento, o cenário foi sendo construído ao longo de todo o ano. Em seu primeiro ano com a SAF e com altas esperanças iniciais, o Confiança marcou diversos itens da cartilha de queda e, rodada a rodada, foi vendo a situação ruim virar desesperadora. No fim, tornou-se irreversível. Abaixo, o ge separou cinco erros cruciais para o rebaixamento do Confiança na Série C em 2026. SAF e a centralização no futebol Diogo Lemos, CEO da SAF do Confiança Sérgio Luís/ADC Pouco tempo depois de assumir o futebol do Confiança, a SAF anunciou como figura central do futebol o CEO Diogo Lemos. Ele teria um papel pesado, visto que chegou como principal responsável pela gestão executiva e estratégica da organização, atuando na condução do projeto esportivo, financeiro e institucional. Porém, a centralização acabou se mostrando um erro determinante. Com formação em administração, especialização em finanças e contabilidade, ele foi um dos vice-presidentes e membro do Conselho de Futebol do Flamengo entre 2019 e 2024, mas nunca havia atuado diretamente como gestor de futebol. Com isso, Diogo Lemos chegou em Aracaju para um trabalho novo, em uma realidade totalmente diferente - saindo de um colosso financeiro do Brasil para um clube de orçamento e estrutura bem reduzidas. Em algumas oportunidades, incluindo entrevista ao ZYB Esporte Clube, ele admitiu o peso do cenário diferente, e ressaltou o aprendizado neste aspecto que vinha tendo no Confiança. Rodolfo Landim durante Assembleia Geral do Confiança Dandara Prado/ADC É fato que todo grande profissional um dia estreou e aprendeu em sua função. Porém, a SAF proletária errou ao centralizar o projeto do time na figura de Diogo, sem um diretor de futebol ou alguma outra figura ao lado que fosse habituada às especificidades da Série C e do futebol nordestino. Faltou na diretoria a peça com rodagem necessária, mapear o mercado dentro da realidade azulina (ponto a ser destacado abaixo), e estancar a sangria com decisões assertivas nos momentos críticos. O elenco, por exemplo, já havia dado sinais desde o estadual de que seria insuficiente, e acabou se confirmando. A inexperiência teve seu custo. Erros de planejamento Jogadores do Confiança em treino aberto no Sabino Ribeiro Sérgio Luís/ADC O motivo anterior teve como consequência os erros de planejamento no futebol, seja na montagem do elenco ou nos treinadores que estiveram à frente do Confiança. Desde o fim do Campeonato Sergipano, foram anunciados 12 jogadores diferentes para compor o elenco da Série C. Mas o impacto foi baixo: somados, todos eles fizeram apenas cinco gols na competição. Destes, apenas o zagueiro Lucas Cunha (enquanto esteve no clube) e o meia PK foram titulares constantes, com todos os demais alternando entre titularidade e reserva ou nem sequer jogando. Algumas janelas de transferências vieram ao longo da Série C, mas o mapeamento de mercado não encorpou o elenco de forma suficiente para agregar a qualidade necessária. Ricardo Resende comanda treino do Confiança Sérgio Luís/ADC A área técnica também refletiu os problemas. Foram três treinadores em 19 rodadas: seis com Cláudio Caçapa, com aproveitamento de 16,7%: sete de Thiago Gomes, que teve 23,8%; e por fim, Ricardo Resende, também com 16,7% em cinco partidas. O caso de Ricardo é o mais emblemático. Contratado em fevereiro para ser auxiliar permanente do time profissional e treinador do Sub-20, ele acabou sendo escolhido como comandante para as cinco rodadas finais, com o Dragão já no Z-2. Uma cartada de desespero com altíssimo risco para buscar a salvação na reta final. O risco não se pagou, e o Confiança caiu. Confrontos diretos nulos em casa Confiança x Barra - Série C do Brasileiro Robert Derik Em uma competição como a Série C, onde a primeira fase é disputada em turno único, os jogos em casa ganham ainda mais peso. E o Confiança teve uma situação rara, com três confrontos diretos contra o Z-2 em casa na reta final. Um cenário que, em tese, poderia ser o trampolim para a salvação. Mas na prática, representou o golpe de misericórdia. O Dragão, lanterna, enfrentou Anápolis, Barra e Itabaiana (que ao lado dele, ocupam as quatro últimas posições) na Arena Batistão. Dos nove pontos possíveis, saiu com apenas um no empate contra o Itabaiana. As derrotas para Barra e Anápolis foram determinantes. Pontos precisos no caminho que fizeram muita falta. Campanha terrível fora Pedro Carrerette comemora gol da virada do Paysandu contra o Confiança na Série C Wagner Santana / OLiberal Tais tropeços em casa, porém, não representaram o único contratempo. Fora de casa, o Confiança teve uma campanha tenebrosa, com apenas 4% de aproveitamento. Dos oito jogos disputados até aqui, o time proletário fez apenas um pontos, com um empate diante do Ypiranga e outras sete derrotas. Foi o único time de toda a Série C que não venceu nenhuma partida longe dos seus domínios. A última rodada, com a equipe já rebaixada, será justamente fora de casa: o Confiança visita a Ferroviária, em busca de pelo menos terminar a competição com um triunfo longe de Aracaju. Tarefa praticamente impossível em 2026. Ataque inexpressivo Maikon Aquino comemora gol para o Confiança sobre o Barra Sérgio Luís/ADC Um outro número alarmante da temporada foi o do ataque. Com um setor ofensivo que não funcionou em nenhum momento, o Confiança tem o pior ataque da Série C, com 11 gols marcados em 18 partidas. Os artilheiros do elenco na Série C foram o zagueiro Ícaro e o atacante Maikon Aquino, com apenas três gols para cada. Ícaro, inclusive, ocupa o posto de artilheiro da temporada mesmo sendo defensor, com meros cinco gols. O desempenho baixo dos atacantes pesou muito na queda. Apenas dois homens de frente do time balançaram as redes na competição: além dos três de Maikon Aquino, João Pedro marcou duas vezes. O equivalente a 45,5% dos tentos do Dragão na competição. Apenas seis times possuem média menor a um gol por jogo na Série C 2026, e o Confiança é um deles. Força ofensiva baixíssima que impulsionou o rebaixamento.