Presidente do Ceará admite crise e revela saída para pagamentos em atraso "Essa conta chegou pra todo mundo." A frase acima é do presidente do Ceará, João Paulo Silva, em entrevista exclusiva ao ge nesta sexta-feira (6). O dirigente detalhou os problemas pelos quais passa o clube e quais soluções tem em mente para estancar a crise financeira que assusta a torcida e derruba a credibilidade da instituição junto ao mercado. 📲 Tudo sobre o Ceará direto no seu WhatsApp. Clique aqui! Ceará acumula sete meses de atraso nos direitos de imagem; clube nega Segundo ele, o problema é nacional: do País e do futebol. Mas, junto à falta de dinheiro em Porangabuçu, as brigas políticas, a insatisfação da torcida e o mau rendimento em campo completam o combo que coloca o clube em um dos piores momentos das últimas décadas. + Sem coleta por falta de pagamento, Ceará acumula lixo na sede; veja fotos O próprio presidente reconhece o montante de dinheiro que entrou nos cofres nos últimos três anos, oriundo de patrocínios - principalmente de bets - e da então LFU (Liga Forte Futebol). Mas também foi esse dinheiro, de acordo com o dirigente, que inflacionou o mercado de atletas. - Atleta que ganhava 70, 80 mil numa Série B, hoje ganha 150, 200, 300 mil - argumenta. Uma realidade que determinava prazo de validade para os clubes que não se reinventassem e adequassem as contas. Os que não o fizeram e ainda tiveram que arcar com as consequências de um rebaixamento agora afogam-se na própria bola de neve. João Paulo Silva, presidente do Ceará Felipe Santos/Ceará SC Funcionários e atletas precisaram lidar com algo novo para os padrões do Ceará, mais profissionalizado desde a gestão de Evandro Leitão, ex-presidente do clube. Vencimentos atrasados agora atingem todos os setores, incluindo serviços terceirizados, como a coleta de lixo. João Paulo, no entanto, garante que a operação do clube em nenhum momento foi prejudicada por estes pagamentos em atraso. + Saiba o que o Ceará precisa fazer para garantir permanência na Série B O time nunca deixou de concentrar, nunca faltou nada para uma viagem. O Ceará, numa Série B, é o elenco que talvez mais viaje. Para você ter ideia, tem time que e está brigando pelo acesso, mas não viaja com médico, assessoria; eles preferem contratar um médico na cidade em que vai jogar. Eu nunca fiz isso. Ninguém quer emprestar dinheiro A busca pelos recursos para honrar com os compromissos é prejudicada pelo próprio desempenho da equipe na Série B do Campeonato Brasileiro. A incerteza sobre a permanência na Série B impede a liberação de recursos por fundos e instituições, que não encontram garantias para o pagamento dos valores solicitados. - É óbvio que todo mundo pensa: 'Vou emprestar dinheiro para um clube que pode cair para a Série C?'. Até isso dificultou a nossa situação. Mas o clube não está largado - garante. Receitas que por muito tempo foram pequenas garantias do Ceará também tiveram queda drástica ao longo da temporada. - O nosso sócio-torcedor, que rendia R$ 2 milhões por mês, caiu para R$ 150 mil. Em todos os nossos jogos — com exceção do jogo contra o Fortaleza — não sobrou dinheiro. Quando a gente ainda estava brigando no campeonato, fiz promoção para encher o estádio, aí sobrava R$ 30, R$ 40 mil. Depois entra numa situação de brigar para não cair, e o estádio não enche mesmo com promoção, gerando R$ 40, R$ 50 mil de prejuízo por jogo - explica o presidente. Deixaram de entrar, também, os R$ 800 mil mensais da casa de aposta que patrocinava o clube antes da proibição pelo Governo Federal. Sem coleta, Ceará acumula lixo Reprodução + Ceará acumula sete meses de atraso nos direitos de imagem dos jogadores E agora? Como pagar as contas? Segundo o dirigente, há um acordo com os atletas para o pagamento dos salários e direitos de imagens que estão pendentes. O dinheiro a ser utilizado para esse fim está condicionado à garantia de que o clube continuará na Série B nacional. - Eu fechei um contrato com uma empresa nova de tiqueteira e sócio. Já inclusive assinei o contrato e eles estão esperando a confirmação da permanência do clube na Série B para poderem fazer o pagamento. Com isso, vou regularizar as coisas. É um contrato de cinco anos para fazer a gestão do sócio-torcedor e da bilheteria. Essa empresa vai me fazer um adiantamento e dar o maior patrocínio do Ceará na atualidade. Já estou negociando isso há 60 dias. O único requisito para o negócio ser sacramentado é ficar na Série B - detalha João Paulo. Ceará ainda não garantiu permanência em 2026 Thiago Gadelha/SVM Além disso, o presidente também levanta a possibilidade de fazer uma operação de crédito com o recebível da LFU próximo ano. - Tenho uma série de coisas que posso fazer no curto prazo, mas estou amarrado porque o clube ainda não se garantiu na Série B - completa. A falta de garantias também teria feito um fundo declinar numa operação com o Ceará, prejudicando o pagamento dos funcionários que estava previsto para a última terça-feira (3). O passivo total do clube gira em torno de R$ 240 milhões, conforme informou João Paulo em outubro deste ano. Conflitos e política interna Com mandato até o fim de 2027, o presidente do Ceará acredita que a oposição estaria agindo para os problemas do clube virem à tona, manchando a imagem do dirigente e pressionando a torcida contra o mandatário. Os conflitos se estendem desde o rebaixamento no fim de 2025. Protestos já foram realizados na sede do clube e até uma ameaça foi dirigida ao presidente, através da filha dele. Uma bomba caseira foi enviada com flores dentro de uma caixa para a menina. Folha salarial e direitos de imagem João Paulo Silva, presidente do Ceará Felipe Santos/Ceará SC A maioria dos atletas hoje recebe seus vencimentos através de dois mecanismos: contrato CLT e direitos de imagem, variando o peso de cada um de acordo com a negociação dos jogadores. - Hoje a maior parte é CLT. A lei permite 50/50. Hoje minha folha é maior na CLT do que no direito de imagem (a CLT líquida deve ser uns R$ 2,2 milhões). Jogadores que subiram da base são todos CLT, não têm imagem. Quem está com imagens em aberto são 11 jogadores, não são todos. Outros que chegaram depois estão com um ou dois meses atrasados - enfatizou. Futuro Desgastado com todo o ecossistema que faz parte do Ceará, João Paulo hoje lembra que "fora isso tudo, ainda é torcedor". Mas no futuro que projeta para o longo prazo não coloca mais a própria figura ligada às cores preto e branco.