Mansur analisa taticamente a eliminação do Brasil para a Noruega Já se passaram horas da eliminação brasileira, mas há um aspecto que talvez vá continuar causando desconforto, até mesmo constrangimento. Não é admissível que, diante da Noruega, a Seleção passe um jogo inteiro investindo em contragolpes e com apenas 34% de posse de bola -- o menor percentual brasileiro na história das Copas, segundo o Sofascore. Seja por estratégia de Carlo Ancelotti (a hipótese mais provável) ou por necessidade diante do contexto do jogo, é um modelo que abdica muito do protagonismo que o Brasil, historicamente, costuma impor. E, neste ponto, percebe-se que o fundo do poço é, sobretudo, conceitual. É claro que esse modelo é confortável para Ancelotti, especialmente em uma fase inicial de trabalho, pois ele já ganhou muito com times reativos. No entanto, mesmo se ele quisesse fazer diferente, talvez não tivesse subsídios para isso. É preocupante perceber que o Brasil hoje parece ter condições de atuar apenas dessa forma, investindo em transições rápidas, sem qualquer capacidade de cadenciar a partida. Quando olhamos para o que o elenco oferece, a realidade que bate à porta é esta mesma -- o Brasil vai demorar muito para deixar de ser coadjuvante. Porque, por exemplo, o futebol brasileiro não tem mais laterais à altura de sua escola e há muito tempo deixou de formar meio-campistas que possam ser dominantes em situações de grande exigência. Nossos atuais jogadores são muito bons, mas ser muito bom raramente é suficiente para formar um elenco capaz de vencer uma Copa do Mundo. Endrick lamenta após Erling Haaland marcar o segundo gol em Brasil x Noruega REUTERS/Mike Segar Não é fácil resolver esta crise de identidade: há muito tempo, os clubes brasileiros deixaram de priorizar a formação de jogadores de determinadas funções, tendo como objetivo atender um certo padrão europeu -- é preciso manter o West Ham abastecido de pontas, afinal de contas. O mal-estar é acentuado quando olhamos o exemplo ao lado. É motivo de orgulho para os argentinos que sua seleção tenha se tornado campeã do mundo com um conceito de futebol muito identificado com sua tradição, priorizando toque de bola, aproximação no meio-campo e infiltrações. A Espanha, com seu tiki-taka, criou uma filosofia reconhecível mesmo com a transição entre gerações. Mesmo o Paraguai, que desagradou muitos parnasianos contra a França, tem uma escola inegociável -- defender-se como se não houvesse amanhã. Enquanto isso, o Brasil parece ter perdido o rumo da história -- da sua própria história. Abandonou sua personalidade para tentar ser competitivo de uma forma genérica. Tanto tentou se espelhar em um padrão europeu nos últimos anos que ontem se viu impotente quando a Noruega usou a posse de bola para se defender, enquanto esperava a intervenção de Nossa Senhora da Bola Esticada. Ser eliminado em uma Copa é doloroso, mas virar as costas para a sua própria natureza é a ferida que mais vai demorar para cicatrizar. "Vivemos o pior momento da seleção brasileira"; Rizek comenta

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