Infantino explica proposta de empresa para gerenciar operações da Fifa A ideia da Fifa de criar uma empresa para administrar seus torneios e vender 20% de suas ações a investidores privados é mais um caso que afeta a imagem de Gianni Infantino. Após a polêmica anulação da suspensão de Balogun, dos Estados Unidos, na Copa do Mundo, por pressão de Donald Trump, o presidente da entidade máxima do futebol se vê em guerra declarada com a Uefa. A organização responsável pelo futebol europeu decidiu boicotar todas as competições da Fifa enquanto o projeto de Gianni Infantino não for cancelado. A proposta será votada pelas 211 federações nacionais filiadas à Fifa. Veja quais são os interesses por trás da ideia, que envolve poder político, arrecadação de bilhões e o futuro do futebol internacional. Fifa pretende criar empresa para fazer a operação de suas principais competições Relação de Infantino e Trump Gianni Infantino e Donald Trump se aproximaram muito nos últimos anos. Vale lembrar que, pelas regras estatutárias da Fifa, Infantino pode ser presidente até no máximo 2031, caso se reeleja em 2027, vivendo assim sua reta final de mandato. A aproximação com o homem mais poderoso do mundo se intensificou após a vitória eleitoral de Trump, no fim de 2024, quando Infantino o parabenizou publicamente. Na sequência, com os EUA como sede da Copa do Mundo de Clubes de 2025 e da Copa do Mundo de 2026, os dois passaram a trocar favores e elogios públicos. Em dezembro do ano passado, Donald Trump recebeu um prêmio da paz das mãos de Infantino, no sorteio dos grupos do Mundial. Em julho de 2026, Infantino participou de evento na Trump Tower e declarou publicamente que a Copa de 2026 se tornou "o maior evento social e cultural da história da humanidade". Irmão de genro de Trump será responsável por distribuir ações da Fifa Donald Trump recebe prêmio da paz de Gianni Infantino, presidente da Fifa Getty Images A Fifa se considera uma organização sem fins lucrativos, mas visa arrecadar o máximo de dinheiro possível com suas atividades para distribuir estes valores para o desenvolvimento do futebol mundial. A aproximação com o governo dos Estados Unidos fez este fator evoluir como nunca antes. A aproximação com o governo dos Estados Unidos fez este fator evoluir como nunca antes: a Fifa arrecadou 15 bilhões de dólares (R$ 76 bilhões) nos quatro anos anteriores à Copa de 2026, o dobro do valor arrecadado no ciclo pré-Mundial de 2022. Além de ter sido a primeira Copa do Mundo com 48 seleções, foi o primeiro ciclo com o Mundial de Clubes com 32 equipes no ano anterior, ambos os torneios disputados em sua maioria no grande centro econômico do planeta. A Fifa sabe que a chance de repetir este faturamento no ciclo pré-2030 é mínima. A ideia de vender 20% da administração de seus torneios a investidores por US$ 4,2 bilhões (R$ 21 bilhões) tornou-se uma estratégia para alavancar as receitas. Jogo político e busca por mais dinheiro Uma das formas de aumentar a arrecadação da próxima Copa do Mundo, sem o mesmo potencial da de 2026, seria aumentar de 48 para 64 seleções em disputa. Com mais participantes e mais partidas, haveria um salto enorme de receitas com bilheteria, hospitalidade e direitos de mídia globais. Infantino ainda venceria politicamente, agradando mais as seleções menores que teriam a possibilidade de disputar o torneio. A ideia de aumentar para 64 seleções partiu oficialmente do presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, e a Fifa disse que vai analisar a proposta, que tem muita resistência principalmente na Uefa e na Concacaf. No entanto, Infantino já conquistou elogios da confederação sul-americana ao definir Argentina, Uruguai e Paraguai também como países-sede em 2030, com jogos de estreia em seus domínios. Saiba por que Copa com 64 seleções é improvável para 2030 Gianni Infantino, presidente da Fifa, e Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol, em sorteio dos grupos da Copa América 2024 Giorgio Viera/AFP Com o aumento para 64 seleções sendo improvável para 2030, a Fifa vê como melhor forma de aumentar arrecadação pro próximo ciclo a criação da Fifa Forward Enterprise (FFE). Seria uma empresa, pertencente à própria Fifa, que teria 20% de suas ações vendidas a investidores privados por US$ 4,2 bilhões (R$ 21 bilhões). O responsável pela distribuição dessas ações é o fundo de investimentos Thrive Eternal, que pertence a Joshua Kushner, irmão do genro de Donald Trump. A subsidiária operaria a comercialização e organização de todas as competições de propriedade da entidade. Infantino garantiu que o projeto faria o repasse para cada federação nacional filiada à Fifa aumentar de 8 milhões de dólares para 20 milhões de dólares. Estas 211 federações serão as responsáveis por votar a aprovação da proposta. Das 211 associações-membro, apenas 65 representam América do Sul e Europa, os principais centros do futebol mundial. A maioria dessas federações que respondem à Fifa necessita do repasse monetário da entidade para financiar centros de treinamento, projetos de desenvolvimento, cursos de treinadores e instalações para o futebol de base. "Uma década de apoio crescente do programa Fifa Forward ajudou nações como Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão a chegar à Copa do Mundo pela 1ª vez. Queremos ajudar a criar novos 'Cabos Verdes'", disse Infantino. Mas todo esse dinheiro enviado a pequenos ou grandes centros do futebol podem ser usados para o desenvolvimento do esporte ou não. A história da Fifa é marcada por casos de corrupção, como no mandato do ex-presidente Joseph Blatter, que renunciou ao cargo em 2015, em meio ao maior escândalo da história do futebol. Quando foi reeleito, em 2019, Infantino disse: "Deixamos de ser tóxicos, quase criminosos, para sermos o que deveríamos ser: uma organização que se importa com futebol". Apesar do foco na transparência e intolerância à corrupção, colocar tanto dinheiro nas mãos das federações gera preocupação. Em comunicado rejeitando o projeto da FFE, a Concacaf lembrou o histórico de corrupção da Fifa: "A Concacaf é uma confederação unida pelo amor ao nosso esporte, onde o futebol vem em primeiro lugar (...) A história mostrou à Fifa e à família do futebol o que acontece quando os responsáveis ​​pelo esporte perdem de vista esses valores". Além disso, a Uefa argumenta que isso abre um espaço para interesses financeiros influenciarem competições que pertencem ao futebol. Segundo a entidade europeia, a Copa do Mundo não pode virar ativo de investimento. Por isso, os europeus decidiram boicotar torneio da Fifa caso o projeto seja aprovado. Boicote da Uefa vai impedir? Com toda força política de Infantino, a única forma de garantir que o plano da Fifa Forward Enterprise (FFE) não avance é o posicionamento implacável de federações maiores, além de clubes, ligas e jogadores. É isso que a Uefa fez já de início, criticando a ideia imediatamente. A Concacaf, Confederação das Américas do Norte, Central e Caribe, também rejeitou a proposta. A guerra entre Uefa e Fifa é antiga, com as duas organizações se alfinetando sempre que possível. Por isso, os europeus foram além da reprovação e anunciaram boicote aos torneios da entidade máxima do futebol caso o projeto seja aprovado. E o boicote não é algo para 2030, mas para daqui a poucos meses. Em outubro, seleções da Europa têm partidas marcadas pelas eliminatórias da Copa do Mundo feminina, que acontecerá em 2027, no Brasil. Se o boicote se confirmar, estas partidas não acontecerão. Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, no 48º Congresso da Uefa REUTERS/Gonzalo Fuentes Para piorar, o presidente da Fifa ainda tem seu cargo ameaçado em meio à crise. De acordo com a TV Sky Sports, da Inglaterra, o conflito aberta pelo projeto de venda de ações da Fifa a investidores privados minou a confiança de dirigentes ao redor do mundo na permanência de Infantino. Infantino sabe que não existe torneio internacional da Fifa sem os europeus. Eles venceram cinco das últimas seis Copas do Mundo masculinas e, no último Mundial colocaram seis seleções entre as oito melhores. Nos clubes europeus estão as grandes estrelas do futebol mundial. E a Europa é a responsável pela maior parte da organização da próxima Copa do Mundo, que acontecerá em Marrocos, Portugal e Espanha, com um jogo em Argentina, Paraguai e Uruguai. Sem a Uefa, a FFE não terá como acontecer. Mesmo que Infantino consiga votos por meio de federações asiáticas, africanas e sul-americanas. Apesar de ser minoria entre os votantes, os europeus têm valor comercial muito superior. A única forma de a Fifa reverter a situação seria convencer federações europeias de aceitarem os 20 milhões de dólares nos próximos quatro anos.

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