Tifanny se pronuncia sobre o banimento de mulheres trans no vôlei: "Não vou me calar" Capitã da seleção brasileira feminina de vôlei, Gabi Guimarães se posicionou publicamente neste domingo (16) em apoio à Tiffany, oposta do Osasco, após as recentes mudanças que impactaram a carreira da jogadora. Em publicação nas redes sociais, a ponteira destacou a importância de olhar para além da discussão sobre regras e elegibilidade e enxergar a atleta como pessoa, manifestando respeito, carinho e apoio à jogadora. Initial plugin text A manifestação de Gabi se somou à de outras personalidades do vôlei. Bicampeã olímpica e ex-capitã da seleção brasileira, Sheilla Castro também publicou uma mensagem de apoio à Tifanny nas redes sociais. Ela afirmou ter acompanhado os acontecimentos dos últimos dias e ressaltou a importância de, em meio às discussões sobre regras e elegibilidade, não esquecer da pessoa e da atleta por trás do caso. Gabi Guimarães durante o Mundial de Clubes de vôlei Deco Pires/Fotojump Confira na íntegra o posicionamento de Gabi: "Quem vai estar na guerra ao seu lado? E isso importa? Mais do que a própria guerra." Hoje abro o post com essa frase que tem feito cada vez mais sentido dentro de mim. Quem está verdadeiramente ao seu lado? Quando algo importante acontece com você, quem segura sua mão? Quem se expõe? Quem olha no seu olho e fica junto? Reflito sobre isso fazendo também um balanço sobre como agi ao longo da minha carreira. Das oportunidades que perdi de falar o que sentia ou de me posicionar, porque não estava segura o suficiente, ou por medo, ou porque simplesmente é muito mais fácil e cômodo ficar quieta no meu canto. Mas o mais fácil e cômodo normalmente não é o caminho mais correto. Então hoje quero falar publicamente sobre a minha revolta e o meu incômodo com a forma como o caso da Tiffany vem sendo tratado no nosso país. Aconteceu uma mudança de rumo na última semana que foi apenas comunicada às pessoas envolvidas. Sem explicação plausível, já que a regra internacional já existia antes, e sem nenhum olhar pra um ser humano que tem uma história, que está com uma temporada em andamento e que depende do seu trabalho para viver. A mudança foi planejada ou pensada por quem? Defendendo os interesses de quem? Em algum momento alguém pensou na pessoa da Tiffany, em como isso impactaria a vida dela? Já são nove anos disputando Superliga. Ou só vamos reforçar que as pessoas trans devem ficar à margem da sociedade mesmo? Para tudo na vida existe bom senso, existe timing e existe a forma de ser feito. É muito lindo ver no mês de junho todo mundo colocando arco-íris pra jogo e ganhando notoriedade com a causa. Mas o mês de junho passa e quem fica na guerra ao seu lado? Quem fica quando os homofóbicos destilam seu preconceito? Quem te dá a mão e te defende? Quase ninguém, né? Recentemente a seleção masculina foi alvo de ataques gravíssimos e quase nada foi dito ou defendido. A gente só vai poder ter o direito de ser quem somos se formos campeões olímpicos? Em caso de derrota, volta todo mundo pro armário? Porque esse é o recado que está sendo transmitido. E aí? Quem vem pra guerra com você? Realmente se posicionar não é fácil, mas é uma escolha. Porque já dizia outro ditado: não basta não ser racista, é preciso ser antirracista. É preciso se posicionar sempre. É preciso enxergar além do superficial para ver o que realmente importa. Tiffany é um ser humano que merece todo nosso respeito. Mas, infelizmente, foi duramente desrespeitada. "Agora estão me levando. Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém. Ninguém se importa comigo." Confira na íntegra o posicionamento de Sheilla: Sheilla participa de treino da seleção em Apeldoorn Divulgação/CBV "Tenho acompanhado tudo o que aconteceu nos últimos dias com a Tiffany. Ela construiu sua carreira no voleibol brasileiro cumprindo os critérios estabelecidos pelas próprias entidades esportivas e agora está vivendo um momento que impacta diretamente sua carreira e sua vida. No meio de tantas opiniões, discussões e julgamentos, acho importante não esquecer de quem está vivendo tudo isso. Porque tem horas em que, para além da discussão sobre regras e elegibilidade, precisamos olhar para a pessoa. Para a Tiffany. Para a atleta que construiu sua história dentro das quadras. Hoje eu só quero deixar aqui meu respeito, meu carinho e meu apoio a ela." Entenda o caso Na tarde da última sexta-feira (14), a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) anunciou que adotaria, em suas competições nacionais de quadra e praia, a política do Comitê Olímpico Internacional (COI) para a elegibilidade de atletas na categoria feminina. Pela nova regra, as jogadoras deverão apresentar teste genético com resultado negativo para o gene SRY, associado ao desenvolvimento masculino. Segundo a CBV, os novos critérios passam a valer para todas as atletas a partir da Superliga A e B da temporada 2026/27, além da Supercopa 2026, da Copa Brasil 2027, do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia 2027 (adulto) e do CBVP Challenger 2027. A recusa em realizar a triagem não será considerada uma infração disciplinar, mas a atleta que não comprovar a elegibilidade ficará impedida de disputar as competições. Tifanny Abreu é a primeira atleta transgênero na elite do vôlei brasileiro Reprodução/Redes Sociais Nesse sábado (15), após a derrota por 3 sets a 2 para o Pinheiros na estreia do time pela competição, a jogadora se pronunciou pela primeira vez sobre a decisão da entidade maior da modalidade no Brasil. — O voleibol é minha vida, meu trabalho. A CBV está tirando de mim tudo o que eu tenho, que é o amor pelo voleibol e a profissão que venho exercendo todos esses anos. São 10 anos no voleibol feminino. Não comecei ontem. Isso não afeta somente a mim. Afeta meu clube, a torcida, patrocinadores, as pessoas que se inspiram em mim, o direito de todas as pessoas trans — declarou a atleta, que atualmente está com 41 anos e disputa esta que provavelmente é a sua última temporada antes da aposentadoria.