“A gente sabe que a meta é chegar à Série C”, “não tenho dúvida de que a gente vai conquistar o acesso”, “não vai faltar empenho para colocar a Portuguesa no cenário nacional que ela merece”, “não venho para ficar pouco tempo” e “vim fazer história”. Essas frases fizeram parte da primeira declaração de Márcio Zanardi como novo treinador da Portuguesa, em um vídeo publicado nas redes sociais, e sem dúvida alguma são as que mais ressoam entre a torcida e entre quem acompanha o dia a dia do clube. Não é preciso fazer uma pesquisa ou uma enquete para descobrir que a Série D do Campeonato Brasileiro é a prioridade da Lusa na temporada 2027. Isso é sentido e ouvido abertamente, seja entre a torcida, seja entre a própria gestão da SAF. Márcio Zanardi é o novo treinador da Portuguesa Divulgação / Portuguesa SAF É evidente que o prestígio, a cota da participação e as vagas em competições nacionais dadas pelo Paulistão são importantes e objeto de desejo. É claro que a visibilidade e as gordas premiações a cada avanço de fase na Copa do Brasil são valiosíssimas. E também é óbvio que, como qualquer torcida, a da Portuguesa sempre quer vencer, sempre quer estar no topo, sempre quer disputar o lugar mais alto do pódio, sempre quer ver o clube desbancando endinheirados, atraindo atenção da mídia, buscando título. Só que a Série D é o porão do inferno do futebol brasileiro. Tratá-la como calendário nacional é, no mínimo, encará-la com extrema boa vontade. Sem exagero, é praticamente uma eliminatória para um calendário nacional realmente consistente. Ninguém é ingênuo a ponto de ignorar a importância das cifras dos outros campeonatos para qualquer direção. Sobretudo a de uma SAF, que investe em busca de retorno, e precisa saber usar essas vitrines. E a Série D vai na contramão de tudo isso. Essas declarações de Márcio Zanardi, portanto, estão em sintonia com o que todos pensam na Portuguesa, da direção da SAF à torcida. Além disso, também tocam em um ponto bem sensível, quase um trauma, que marcou o futebol rubro-verde em 2026. Depois de ter errado com Cauan de Almeida no primeiro ano, 2025, a SAF acertou na contratação de Fábio Matias para 2026. O treinador foi o principal responsável pela campanha que, depois de muito tempo, devolveu a Lusa às quartas de final do Paulistão. O problema é que, apesar de ter repetido várias vezes que a prioridade era a Série D, que ficaria para o campeonato, que cumpriria o contrato, etc, Fábio Matias deixou a Portuguesa na primeira rodada da competição nacional para ir para a Série A. Durou pouco lá, até porque foi para a Chapecoense, e praticamente só somou derrotas. Sabe-se que há um degrau gigantesco entre Paulistão e Série D. Um bom estadual naturalmente vai ensejar propostas de clubes de divisões superiores. Qualquer divisão nacional, seja A, B ou C, será infinitamente mais atrativa que uma Série D. O sonho obviamente é conseguir montar uma comissão técnica que vá bem no Paulistão (e aqui nem se menciona disputa por título, mas permanência e vaga na Copa do Brasil) e fique para um projeto mais amplo, de continuidade, para buscar o acesso na Série D. Quando o contratado é Márcio Zanardi evidentemente todos voltam a lembrar de Fábio Matias. Afinal, a trajetória recente dos dois é marcada por disputas de Série B. Ambos naturalmente têm mercado em divisões superiores. O Paulistão seria só trampolim? Foi para Matias, apesar de que um pouco furado. Zanardi, porém, não quis se furtar na primeira declaração. E, tão alinhado quanto esteve ao mencionar a Série D como prioridade da Lusa, tocou na ferida e prometeu que não veio para uma passagem curta. Os mais céticos dirão, com total razão, que não quer dizer muita coisa e que já vimos esse enredo. De fato, não há como colocar a mão no fogo. Só o tempo dirá. Porém, não há como desprezar o peso de a fala ter partido voluntariamente do próprio Zanardi. No plano teórico, a contratação de Márcio Zanardi faz sentido. Trata-se de um técnico da nova geração. Aos 48 anos, está há cerca de seis atuando no futebol profissional, depois de praticamente uma década de trabalhos bem sucedidos em categorias de base. Aliás, trabalhou na base da Lusa. Lembra da Copinha de 2018? Quando a Portuguesa eliminou clubes como Goiás e Palmeiras? E caiu apenas na semifinal para o campeão Flamengo? Zanardi era o treinador. Fez de um limão uma limonada, em meio à crise. Firmou-se como técnico de time principal entre 2020 e 2021, no São Bernardo. Levou o clube ao título da Copa Paulista. Com isso, conquistou vaga na Série D. E, aproveitando essa vaga, conseguiu de primeira o acesso para a Série C do Campeonato Brasileiro. Fez um bom Paulistão mais de uma vez. Quase foi contratado pelo Corinthians. Muitos vão lembrar que só não substituiu Mano Menezes porque, na hora H, a diretoria alvinegra “descobriu” que o regulamento não previa troca no mesmo campeonato. Zanardi ficou marcado por trabalhos que partiam de uma boa organização defensiva, mas de um futebol bastante vertical ofensivamente. Quando teve tempo e estrutura, deu resultado. E, no São Bernardo, trabalhou com uma gestão de caráter empresarial. Em 2024, ao deixar a equipe do ABC, foi para o Goiás e não conseguiu o sonhado acesso à Série A. Pode-se considerar um insucesso, mas também não se deve ignorar que o clube continua tentando, sem sucesso, mesmo com investimento e estrutura. Na sequência, cumpriu a missão de livrar o Botafogo-SP da queda à Série C e também a de manter na elite do Paulistão subsequente. A trajetória da equipe de Ribeirão Preto vem sendo essa há tempos, portanto, não se podia esperar nada muito diferente. Os trabalhos negativos mesmo vieram depois. No ano passado, foi um dos técnicos do Amazonas na campanha que terminou em queda para a Série C. No começo de 2026, esteve a frente do Figueirense, que caiu para a segunda divisão estadual. Logo depois, assumiu a Ponte Preta, cujo objetivo era um milagre: tentar não ser rebaixada para a Série C em meio a um caos administrativo, a salários atrasados, a greve de funcionários, a debandada de jogadores e a um racha completo com a torcida. Há uma semelhança bastante clara entre esses três trabalhos: clubes em crise severa. Aí vem à tona aquele dilema do biscoito: é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho? Zanardi errou nas escolhas dos clubes? Só apareceu proposta ruim porque não estava em alta? Ou ficou desempregado em momentos ingratos? Esse retrospecto recente lembra bastante o de Fábio Matias. Vinha de trabalhos ruins, nesse escalão da Série B, e acabou aceitando assumir um clube da Série D, no caso a Portuguesa, com um pretexto de enfim voltar a ter um projeto com tempo e estrutura. Zanardi é um nome que faz sentido porque é dos raros profissionais com mercado em divisões superiores que, pelo momento da carreira, acha uma boa vir para a Lusa. Já disputou Paulistão e Série D, já foi bem em ambos, e também já trabalhou no clube. Tem no currículo elementos dos quais a torcida sente falta no Canindé: organização defensiva e futebol vertical. Já teve experiência com clube-empresa, é de uma nova geração, topou um contrato até o fim do Paulistão da outra temporada, a de 2028. Faz tanto sentido quanto Fábio Matias para Paulistão e Série D. Como também não foi sem sentido a contratação de Ademir Fesan, após um acesso à Série C por uma equipe paulista na temporada anterior. No plano teórico, as três fazem total sentido. Só que é futebol. Pode dar certo ou não. E, um pouco mais no caso de Fesan do que no de Matias, depende também do elenco. Ou essencialmente do elenco. Até porque ter mercado em Série B não torna nenhum treinador um milagreiro. É preciso ter elenco. Daqui até o fim do ano a expectativa se volta justamente para essa montagem do elenco. Será possível ver se a SAF manterá o mesmo nível de investimento ou gastará menos, se montará um elenco mais ou menos qualificado, diferentes ou de continuidade, etc. Outro ponto de atenção será a interlocução com Jorginho, que recentemente assumiu como coordenador técnico da Lusa, e terá como uma das principais atribuições o contato próximo e direto com a comissão, e voz na avaliação de contratações. Esses próximos sinais podem ir clareando os caminhos para 2027, modulando as expectativas de quem acompanha a Portuguesa. Por ora, as declarações, o repertório e o contexto de mercado de Márcio Zanardi explicam a boa receptividade pela torcida. Que essa nova tentativa, enfim, dê certo. Não só no Paulistão e na Copa do Brasil, mas também no principal objetivo da Lusa, que é o acesso na Série D. Que Zanardi transforme as expectativas em realidade. E que os traumas sejam apenas passado. *Luiz Nascimento, 34, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site.