Não é preciso ser muito observador para sentir que a relação de Neymar com o futebol no Brasil está esgarçada, e não sei como ele consegue ainda atuar com a carga de estresse e peso que carrega cada vez que pisa no gramado. Jogar futebol é uma profissão como qualquer outra, e é comprovadamente impossível desempenhar bem - e, de resto, viver bem - se a pessoa não está feliz no trabalho. Se atua com raiva, se mesmo quando faz bem as coisas precisa esfregar isso na cara dos outros... ninguém, muito menos Neymar, que não trabalha mais para se sustentar, precisa disso. O que Neymar ainda quer no futebol brasileiro? Gosta desse permanente confronto ou preferia ser feliz jogando bola? Ele faria um bem enorme ao próprio fígado, se se mirasse em jogadores da sua prateleira, como Messi e CR7, e tentasse recuperar a alegria de jogar num mercado como os Estados Unidos. Teria assim, inclusive, chances de buscar um título de Copa do Mundo em 2030. Neymar volta, faz dois gols, mas Santos só empata com a Chapecoense A realidade do momento é: Neymar briga com o árbitro, Neymar briga com os adversários, Neymar briga com a torcida... Contra a Chapecoense, ele tomou uma falta, levantou-se e deu um empurrão em Tubarão (imaginem se todos os que sofressem faltas reagissem assim, os jogos não acabariam por falta de quórum). Se o árbitro não marcasse a falta, ou se não amarelasse Tubarão, eu entenderia a revolta de Neymar. Mas a falta foi marcada e o "agressor" amarelado. Mas, para Neymar, não é suficiente. Ele teve de destilar sua fúria empurrando Marcinho. O árbitro foi obrigado a dar cartão ao camisa 10 santista - que, mais uma vez, está suspenso. Não dá nem para pensar que Neymar não queria enfrentar o Athlético-PR, porque para ele basta dizer a seu empregador que não quer jogar, tudo é aceito. O cartão foi, sim, consequência do estado de espírito pesado de Neymar. Mesmo quando faz o que mais sabe, com o talento absurdo que Deus lhe deu, a reação é de raiva e mágoa. Na Copa do Mundo, ensinou a Bruno Guimarães como se bate um pênalti, mas nãoconseguiu não bater boca com o goleiro da Noruega. Contra a Chape, o gol que fez poucos fariam. Não pela conclusão, que foi bonita, mas porque a jogada lógica era ele tocar ao companheiro livre na esquerda. Mas Neymar foi genial ao buscar o mais difícil, Barreal por dentro, que devolveu para o chute final. Aí, em vez de ficar feliz e celebrar com os colegas ou com a torcida, fez questão de ficar mandando gestos de respostinha a quem o criticou por jogar pôquer publicamente no momento em que o Santos estava em campo na Venezuela. Graças a seu staff e ao milhares de seguidores que o transformaram numa seita, Neymar se acha incriticável. Fora de campo, é uma absoluta perda de tempo e energia respondendo de modo agressivo e pouco educado a jornalistas e influenciadores - se usasse o tempo que gasta nas redes sociais brincando e se divertindo com sua linda família, duvido que não estivesse mais leve e feliz. Neymar não é obrigado, por exemplo, a gostar, se relacionar ou concordar com Neto. Mas deveria ter um mínimo de respeito por um ex-jogador que é um dos maiores ídolos da história do Corinthians, que já vestiu a camisa do Santos, da seleção brasileira, e que, no fim das contas, ganhou tantas Copas do Mundo quanto Neymar. Em 2021, Messi e CR7, com a Copa de 2022 na mente, fugiram do estresse de Barcelona e Real Madrid, e foram se preparar para o Mundial no PSG (a Ligue 1 não estressa ninguém, e Messi fazia o que bem entendia) e no Manchester United (que há anos não se vê obrigado a conquistar). Pois bem: Messi bateu campeão em 22 e CR7 só teve menos chances porque os jogadores de Portugal não têm por ele a mesma devoção que os argentinos têm por Messi. Mas os dois queriam mais, queriam 2026. Aí, mais velhos, foram treina nos Estados Unidos (Messi) e Arábia Saudita (CR7, que, para o caso de não conseguir ser campeão do mundo, buscaria o gol 1000). Na mesma época, Neymar, para variar, não se preocupava com a Seleção, até porque todos os treinadores dela (infelizmente incluindo Ancelotti) foram capachos do craque. Sua preocupação era umbilical: ser o melhor do mundo. Avaliou muito erradamente que teria mais chances indo para o PSG, e está esperando o título da Fifa até hoje. Tentou a Arábia Saudita, mas aí o corpo começou a sentir os efeitos das muitas lesões que teve (e aí Neymar não tem a menor culpa) e ainda deu azar de pegar um carne de pescoço como Jorge Jesus, que não abaixou a cabeça para o brasileiro. Quando Neymar se lembrou da Copa de 2026, voltou para o Santos, sua eterna casa. Achou, de novo muito equivocadamente, que mandar e desmandar no clube seria suficiente para ir em boas condições para o Mundial. Mandou e desmandou, sim, mas o que ele não se dá conta (porque vive numa bolha virtual de adoradores cegos) é que ele é personagem gigante do futebol brasileiro, transcende as fronteiras de Santos. Como não está disposto a ser exemplo para ninguém que não apareça em seu espelho, confrontou com a mídia que faz sua obrigação e acompanha tudo o que ele faz fora de campo também - e isso, sim senhor, é pauta (sem julgamento, cada leitor é quem tira as conclusões). E nada disso vai mudar. Por tudo o que ele já fez, por tudo o que ainda deve ser capaz de fazer, em nome de sua saúde mental, e em nome da felicidade com a família, Neymar deveria buscar o caminho de Messi, Suarez, Casemiro, e ir jogar na MLS. Durante a Copa, os canais do jogador divulgaram vídeos lindos dele, na folga, com a família, os filhos, brincado numa bela casa na Flórida. E se fosse jogar futebol lá, poderia fazer o que bem entendesse fora do campo, nos Estados Unidos poucos o conhecem, o futebol masculino não tem o mesmo peso que tem aqui - deve haver pôquer lá também. Poderia preparar um eficiente cronograma de preparação para chegar em 2030 em boas condições físicas e, principalmente, o que não teve em 2026, ritmo de competição. Tenho certeza absoluta de que, nesse cenário, Ancelotti o chamaria de volta e ele poderia, no fim da carreira, conseguir um título de campeão - ser, enfim, o melhor em alguma coisa. O futebol merecia essa dedicação de Neymar. E pelo que já foi um dia, também ele merecia. Mas para tomar uma decisão como essa, ele precisa definir o que ainda quer do futebol. Se está satisfeito, deveria trocar de vez a bola pelas cartas. Mas se só consegue viver em conflito, então o Santos que arque com as consequências. A imprensa continuará cumprindo seu dever de informar e comentar tudo o que se refere a um dos maiores jogadores da nossa história. Tomara que desta vez ele acerte.

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