A primeira missão da Seleção é não se descolar da realidade
Débora Gares informa os jogadores que já se apresentaram à seleção brasileira A convocação da seleção brasileira, há pouco mais de uma semana, me deixou preocupado. A festa de gosto duvidoso, o aviso do presidente da CBF de que “o hexa vem”, a profusão de artistas e influenciadores na plateia, a vibração dos convidados no anúncio do nome de Neymar, a presença de slogans como “É proibido sonhar pequeno” – tudo isso me pareceu descolado da realidade. Pois ela, a realidade, bate à porta nesta quarta-feira, quando a Seleção inicia o período de treinamentos para a Copa do Mundo, 18 dias antes da estreia. Vêm a reboque a falta de entrosamento, o tempo perdido em um ciclo caótico, os desfalques, os problemas físicos, as evidentes lacunas no elenco. Sei lá, ando por aí em busca de motivos para sonhar grande, mas não está sendo fácil. O Brasil tem chances de ganhar a Copa, claro que tem. Mas elas são pequenas e dependem de um alinhamento astral – que tudo dê certo a partir de agora. A começar pela criação de um ambiente que proteja o elenco do oba-oba visto na convocação. A Seleção precisará de privacidade e concentração. Não é fácil em tempos de hiperdocumentação – as últimas semanas da saga de Neymar em busca de um lugar na Copa, por exemplo, foram registradas em vídeo, sempre com um boné da patrocinadora na cabeça. Havia peças publicitárias prontas, à espera de um “enter”, para o momento em que Ancelotti dissesse o nome do craque. Carlo Ancelotti na convocação da seleção brasileira Reuters Tudo é produção de conteúdo o tempo todo. Tudo é monetização. A boa notícia é que a CBF tem ótimos profissionais (casos do coordenador geral Rodrigo Caetano e do diretor de comunicação Fábio Seixas) para lidar com o assédio de patrocinadores, influenciadores, familiares e, naturalmente, imprensa. E também tem um treinador capaz de incutir na cabeça dos jogadores a necessidade de focar na preparação. É uma missão desafiadora, visto que hoje em dia os muros do CT não bastam: a distração está nas mensagens de WhatsApp, nos stories do Instagram, nos perfis de TikTok. Criar um sistema de proteção não é garantia de sucesso. Em 2010, fiz longos plantões na frente da concentração da Seleção em Joanesburgo. Nada acontecia, a reclusão exigida por Dunga era bem-sucedida. Mesmo assim, caímos nas quartas de final. Em 2014, acompanhei a Espanha, que se isolou na fortaleza do CT do Athletico em Curitiba, a cidade com menos clima de Copa no Brasil. Também não funcionou: a campeã do mundo estaria eliminada após as duas primeiras partidas, um fiasco. Mas é preciso reconhecer o impacto que o ambiente externo pode ter em uma Copa do Mundo. Em 2006, a preparação da Seleção em Weggis, na Suíça, virou uma festa. A relação entre elenco e público saiu do controle – até invasão de campo teve. Em 2014, o clima de uma Copa disputada no Brasil também contaminou o grupo, talvez mais em forma de pressão do que de euforia. Por tudo isso, o melhor que a Seleção pode fazer a partir desta quarta-feira é criar um ambiente de normalidade, que dê aos jogadores a noção de onde eles estão no meio ambiente da Copa. E o mais importante: de onde eles, com muita concentração, podem chegar.
Débora Gares informa os jogadores que já se apresentaram à seleção brasileira A convocação da seleção brasileira, há pouco mais de uma semana, me deixou preocupado. A festa de gosto duvidoso, o aviso do presidente da CBF de que “o hexa vem”, a profusão de artistas e influenciadores na plateia, a vibração dos convidados no anúncio do nome de Neymar, a presença de slogans como “É proibido sonhar pequeno” – tudo isso me pareceu descolado da realidade. Pois ela, a realidade, bate à porta nesta quarta-feira, quando a Seleção inicia o período de treinamentos para a Copa do Mundo, 18 dias antes da estreia. Vêm a reboque a falta de entrosamento, o tempo perdido em um ciclo caótico, os desfalques, os problemas físicos, as evidentes lacunas no elenco. Sei lá, ando por aí em busca de motivos para sonhar grande, mas não está sendo fácil. O Brasil tem chances de ganhar a Copa, claro que tem. Mas elas são pequenas e dependem de um alinhamento astral – que tudo dê certo a partir de agora. A começar pela criação de um ambiente que proteja o elenco do oba-oba visto na convocação. A Seleção precisará de privacidade e concentração. Não é fácil em tempos de hiperdocumentação – as últimas semanas da saga de Neymar em busca de um lugar na Copa, por exemplo, foram registradas em vídeo, sempre com um boné da patrocinadora na cabeça. Havia peças publicitárias prontas, à espera de um “enter”, para o momento em que Ancelotti dissesse o nome do craque. Carlo Ancelotti na convocação da seleção brasileira Reuters Tudo é produção de conteúdo o tempo todo. Tudo é monetização. A boa notícia é que a CBF tem ótimos profissionais (casos do coordenador geral Rodrigo Caetano e do diretor de comunicação Fábio Seixas) para lidar com o assédio de patrocinadores, influenciadores, familiares e, naturalmente, imprensa. E também tem um treinador capaz de incutir na cabeça dos jogadores a necessidade de focar na preparação. É uma missão desafiadora, visto que hoje em dia os muros do CT não bastam: a distração está nas mensagens de WhatsApp, nos stories do Instagram, nos perfis de TikTok. Criar um sistema de proteção não é garantia de sucesso. Em 2010, fiz longos plantões na frente da concentração da Seleção em Joanesburgo. Nada acontecia, a reclusão exigida por Dunga era bem-sucedida. Mesmo assim, caímos nas quartas de final. Em 2014, acompanhei a Espanha, que se isolou na fortaleza do CT do Athletico em Curitiba, a cidade com menos clima de Copa no Brasil. Também não funcionou: a campeã do mundo estaria eliminada após as duas primeiras partidas, um fiasco. Mas é preciso reconhecer o impacto que o ambiente externo pode ter em uma Copa do Mundo. Em 2006, a preparação da Seleção em Weggis, na Suíça, virou uma festa. A relação entre elenco e público saiu do controle – até invasão de campo teve. Em 2014, o clima de uma Copa disputada no Brasil também contaminou o grupo, talvez mais em forma de pressão do que de euforia. Por tudo isso, o melhor que a Seleção pode fazer a partir desta quarta-feira é criar um ambiente de normalidade, que dê aos jogadores a noção de onde eles estão no meio ambiente da Copa. E o mais importante: de onde eles, com muita concentração, podem chegar.
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