O Paraguai transformou a Copa em mitologia sul-americana
Alemanha 1 (3) x (4) 1 Paraguai | Melhores momentos | 2ª fase | Copa do Mundo 2026 Parece evidente que todo paraguaio gostaria de nascer como zagueiro ou cuia de tereré. Afinal de contas, ambas as possibilidades carregam parte fundamental da identidade guaraní. Contra a Alemanha, na fase de 16 avos, era um país inteiro defendendo sua própria área. Não se deu a necessária atenção à declaração de Gustavo Alfaro, antes de viajar para a Copa com doze quilos de Libertadores na bagagem. Ele afirmou que a sua seleção seria "a expressão que respeite a idiossincrasia deste país". Ou seja, o Paraguai viajava para transformar a retranca em uma espécie de arte. Se naturalmente os paraguaios -- seleção, clubes, idosos e crianças -- são mestres em se defender, imagine então quando o próprio Paraguai avisa que vai se defender como Paraguai. Em alguma sala da FIFA, uma luz vermelha deve ter acendido. Sobrou para a impotente Alemanha, que passou a tarde tentando desvendar o código de um cadeado impossível de desarmar. Durante quase toda a partida, a estratégia paraguaia mostrou-se superior -- um baile tático em que todos em campo dançavam com as pernas amarradas. E, quando algum horizonte se apresentava, não precisava mais do que Julio Enciso ou Miguel Almirón para ameaçar o império alemão. Aliás, Almirón foi o melhor em campo, ao lado do arqueiro Orlando Gil, com 26 anos no documento de identidade e dois séculos de experiência nas luvas, que certamente será homenageado em solo paraguaio -- não como nome de avenida, óbvio, mas de barragem. Jogadores do Paraguai comemoram classificação na Copa do Mundo Alexander Hassenstein/Getty Images Há um contraste profundo quando se observa como sul-americanos e europeus comemoram um gol na arquibancada. Enquanto os nascidos na Europa celebram algo certamente muito prazeroso, quem habita este canto do hemisfério sul parece transportado para outra realidade sensorial -- por um período de segundos, cada torcedor parece capaz de fundar uma nova religião, desvirar um Fusca capotado ou enfrentar um exército invasor usando apenas um palito de dente. E isso acontece não exatamente por puro deleite: é que o futebol muitas vezes nos dá o que outros aspectos da vida deixam de oferecer. O país guaraní, sobretudo, precisou aprender a resistir após ser praticamente destruído pelos vizinhos sul-americanos na Guerra do Paraguai. Há algo de perseverança que ecoa pelos séculos, então a seleção paraguaia costuma levar esse espírito para dentro do campo. Não por acaso, muitas vezes mostra-se como um obstáculo terrível para futuras campeãs, como França e Espanha, em 1998 e 2010. Ao longo dos tempos, o que o time guaraní parece dizer é que a diferença técnica jamais será motivo para entrar em campo já derrotado, em qualquer cenário. Se não temos os violinos, nos viramos com os alicates. SI SE PUDO! Canale converte o último pênalti e Paraguai elimina Alemanha E assim o time de Gustavo Alfaro usou o gramado do Boston Stadium para ministrar uma aula magna intitulada A beleza do ferrolho: estágios estéticos avançados. Nos pênaltis, contra o lendário arqueiro Manuel Neuer, tivemos Maurício, Gustavo Gómez, Balbuena, Canale -- e, neste ponto, o desafio guaraní já havia se tornado uma questão continental e as veias da América Latina pulsavam ao som de chamamé. Na entrevista após o jogo, Alfaro soltou uma frase que é quase um manifesto: "Eles se formaram nas academias de primeiro nível. Nós viemos da terra vermelha". Nos últimos anos, talvez por herança involuntária de Pep Guardiola, alimentou--se a crença de que se defender com unhas e dentes é um desserviço ao futebol, como se houvesse apenas uma forma nobre de vencer. Bem pelo contrário: a beleza do futebol está em usar os recursos disponíveis para dobrar um adversário superior. É certamente nisso que os paraguaios pensam quando colocam a cabeça no travesseiro, depois da oração para São Carlos Gamarra -- e antes de levantarem para dar uma última conferida nas fechaduras. Gustavo Alfaro, técnico do Paraguai, em jogo contra a Alemanha pela Copa do Mundo Reuters/Paul Rutherford
Alemanha 1 (3) x (4) 1 Paraguai | Melhores momentos | 2ª fase | Copa do Mundo 2026 Parece evidente que todo paraguaio gostaria de nascer como zagueiro ou cuia de tereré. Afinal de contas, ambas as possibilidades carregam parte fundamental da identidade guaraní. Contra a Alemanha, na fase de 16 avos, era um país inteiro defendendo sua própria área. Não se deu a necessária atenção à declaração de Gustavo Alfaro, antes de viajar para a Copa com doze quilos de Libertadores na bagagem. Ele afirmou que a sua seleção seria "a expressão que respeite a idiossincrasia deste país". Ou seja, o Paraguai viajava para transformar a retranca em uma espécie de arte. Se naturalmente os paraguaios -- seleção, clubes, idosos e crianças -- são mestres em se defender, imagine então quando o próprio Paraguai avisa que vai se defender como Paraguai. Em alguma sala da FIFA, uma luz vermelha deve ter acendido. Sobrou para a impotente Alemanha, que passou a tarde tentando desvendar o código de um cadeado impossível de desarmar. Durante quase toda a partida, a estratégia paraguaia mostrou-se superior -- um baile tático em que todos em campo dançavam com as pernas amarradas. E, quando algum horizonte se apresentava, não precisava mais do que Julio Enciso ou Miguel Almirón para ameaçar o império alemão. Aliás, Almirón foi o melhor em campo, ao lado do arqueiro Orlando Gil, com 26 anos no documento de identidade e dois séculos de experiência nas luvas, que certamente será homenageado em solo paraguaio -- não como nome de avenida, óbvio, mas de barragem. Jogadores do Paraguai comemoram classificação na Copa do Mundo Alexander Hassenstein/Getty Images Há um contraste profundo quando se observa como sul-americanos e europeus comemoram um gol na arquibancada. Enquanto os nascidos na Europa celebram algo certamente muito prazeroso, quem habita este canto do hemisfério sul parece transportado para outra realidade sensorial -- por um período de segundos, cada torcedor parece capaz de fundar uma nova religião, desvirar um Fusca capotado ou enfrentar um exército invasor usando apenas um palito de dente. E isso acontece não exatamente por puro deleite: é que o futebol muitas vezes nos dá o que outros aspectos da vida deixam de oferecer. O país guaraní, sobretudo, precisou aprender a resistir após ser praticamente destruído pelos vizinhos sul-americanos na Guerra do Paraguai. Há algo de perseverança que ecoa pelos séculos, então a seleção paraguaia costuma levar esse espírito para dentro do campo. Não por acaso, muitas vezes mostra-se como um obstáculo terrível para futuras campeãs, como França e Espanha, em 1998 e 2010. Ao longo dos tempos, o que o time guaraní parece dizer é que a diferença técnica jamais será motivo para entrar em campo já derrotado, em qualquer cenário. Se não temos os violinos, nos viramos com os alicates. SI SE PUDO! Canale converte o último pênalti e Paraguai elimina Alemanha E assim o time de Gustavo Alfaro usou o gramado do Boston Stadium para ministrar uma aula magna intitulada A beleza do ferrolho: estágios estéticos avançados. Nos pênaltis, contra o lendário arqueiro Manuel Neuer, tivemos Maurício, Gustavo Gómez, Balbuena, Canale -- e, neste ponto, o desafio guaraní já havia se tornado uma questão continental e as veias da América Latina pulsavam ao som de chamamé. Na entrevista após o jogo, Alfaro soltou uma frase que é quase um manifesto: "Eles se formaram nas academias de primeiro nível. Nós viemos da terra vermelha". Nos últimos anos, talvez por herança involuntária de Pep Guardiola, alimentou--se a crença de que se defender com unhas e dentes é um desserviço ao futebol, como se houvesse apenas uma forma nobre de vencer. Bem pelo contrário: a beleza do futebol está em usar os recursos disponíveis para dobrar um adversário superior. É certamente nisso que os paraguaios pensam quando colocam a cabeça no travesseiro, depois da oração para São Carlos Gamarra -- e antes de levantarem para dar uma última conferida nas fechaduras. Gustavo Alfaro, técnico do Paraguai, em jogo contra a Alemanha pela Copa do Mundo Reuters/Paul Rutherford
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