Uma publicação nas redes sociais compara o preço da gasolina em Portugal com o de três países em guerra e sugere que algo não bate certo.

Circula no Facebook uma imagem que questiona se será Portugal a estar em guerra sem os portugueses saberem.

A questão é levantada a par de uma imagem que mostra a gasolina a custar mais em Portugal, um país em paz, do que na Rússia, na Ucrânia e no Irão, três países atualmente envolvidos em conflitos militares.

Segundo a publicação, no dia 11 de setembro, um litro de gasolina custava:

Ao consultar o portal Global Petrol Prices, que compila preços de combustíveis a nível mundial, os valores para 14 de setembro são muito próximos: 2,070 € em Portugal, 1,712 € na Ucrânia, 0,766 € na Rússia e apenas 0,025 € no Irão.

Ou seja, a publicação não inventou os números, pois os preços estão corretos.

Há pelo menos quatro fatores que explicam a diferença, e nenhum deles tem que ver com estar ou não em guerra.

A Rússia é o terceiro maior produtor mundial de petróleo e o Irão ocupa o sexto lugar. Países produtores conseguem vender combustível barato no mercado interno, compensando com as receitas da exportação.

Uma vez que Portugal não produz petróleo, importa praticamente tudo e paga os preços do mercado internacional.

A Ucrânia também produz, mas em volume muito reduzido, insuficiente para as suas necessidades.

O rublo russo e o rial iraniano estão fortemente desvalorizados face ao euro. Isto distorce a comparação quando os preços são convertidos, fazendo-os parecer ainda mais baixos do que realmente representam em poder de compra local.

Em Portugal, uma fatia considerável do preço na bomba é imposto. Em países como a Rússia e o Irão, o combustível é fortemente subsidiado pelo Estado, uma política com custos orçamentais elevados e que, no caso iraniano, já provocou protestos violentos quando o governo tentou reduzir os subsídios.

O valor de 0,04 €/litro não se aplica a todos os iranianos, nem a todo o consumo. Segundo a Reuters, o Irão introduziu em setembro um sistema de preços por quotas.

Ou seja, o valor mais baixo aplica-se apenas a consumos superiores a 110 litros por mês, um limite acima do qual o preço sobe.

A comparação que circula nas redes sociais não é falsa nos números, mas é enganosa na conclusão, conforme explicado até pelo Polígrafo.

O preço da gasolina não reflete se um país está em guerra ou em paz, dependendo especialmente de ser produtor de petróleo, da política fiscal e de subsídios do Estado, e da força (ou fraqueza) da sua moeda.

No nosso caso, Portugal paga mais, porque importa petróleo a preços internacionais e tributa fortemente os combustíveis.

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