A alegoria de Ícaro e suas asas queimando ao sol foram inevitáveis. O brasileiro Leonardo Bertozzi (ESPN), o alemão Sebastian Stafford-Bloor (The Athletic) e o francês Philippe Auclair (Eurosport) coincidiram com este blog, ao explorarem essa imagem perfeita da tragédia que Gianni Infantino arrumou para si mesmo, graças à húbris que alimentou nos últimos anos. A iniciativa de criar uma empresa e vender 20% dos direitos comerciais das competições da FIFA pra investidores privados desbaratou uma crise há muito tempo não vista na FIFA. As eleições previstas para março de 2027, que pareciam já estar definidas para o quarto e último mandato de Infantino, se tornaram imprevisíveis. A UEFA voltou a expressar publicamente seu descontentamento à ideia da FIFA Foward Enterprises (FFE), mesmo após o encerramento do projeto, mantendo a exigência de saída de Infantino e alegando perda de confiança em sua liderança. Os europeus insistem que as garantias demandadas para o recuo na decisão de boicotar as próximas competições globais - inclusive a Copa do Mundo Feminina de 2027 - não foram devidamente entregues. As federações de País de Gales, Inglaterra, Sérvia, Grécia e Suécia declararam publicamente a retirada da posição de apoio à reeleição de Gianni Infantino, feitas há alguns meses ao lado de cerca de 200 federações. A tendência é que outras comecem a fazer o mesmo. Assim como a UEFA, a Concacaf recomendou aos seus membros a retirada do apoio. Por outro lado, como consequência dos esforços de Infantino para reverter as besteiras que fez, apoiadores começaram a se pronunciar. A Confederação Africana de Futebol (CAF) e federações como Paraguai, Argentina, México e Marrocos se adiantaram em declarar a manutenção do apoio a Infantino, apesar das discordâncias com os planos da FFE. Federações asiáticas, como Catar, Emirados Árabes Unidos, Líbano, Butão e Kuwait, também declararam apoio ao presidente da FIFA, criado uma força de pressão para que as numerosas filiadas à AFC se mantenham ao lado da atual gestão. A Conmebol não declarou apoio explícito, mas ressaltou que defende que o estatuto seja seguido e que as eleições ocorram como planejado. Um posicionamento do tipo “colocar panos quentes”, que deve ser seguido por muitos nas próximas semanas. Muitas dessas posições favoráveis são posteriores à reunião da diretoria da FIFA da última quarta (31), realizada no Marrocos e convocada às pressas por Infantino, de onde o mandatário tirou um comunicado de “apoio total”, logo após declarar como encerrado o projeto da FFE. Muitos membros da diretoria estiveram ausentes, dentre eles o diretor de operações, Kevin Lamour, que antes se protegeu das críticas ao afirmar que não estava ciente do projeto da FFE e que se tratava de um “projeto de uma pessoa só”. O prazo para a inscrição de candidaturas para as eleições do ano que vem se encerra em 18 de novembro de 2026, mas até então não há nomes. Opositores se esforçam em seguir fazendo a imagem de Infantino se deteriorar, enquanto calculam a força das alternativas eleitorais até então anônimas. Todos os homens e mulheres possuem mais ou menos o mesmo tamanho, mas o poder opera como uma sombra projetada numa parede. O tamanho de um poderoso depende da posição de um candieiro que ilumina o seu corpo. Políticos, em geral, tomam suas decisões estudando essa sombra, até que algo desloque ou apague a fonte da luz. Os erros de Infantino afastaram o candieiro de si, esmaecendo e diminuindo e a sua sombra. A UEFA agora busca apagá-lo de vez, enquanto teóricos apoiadores fiéis se oferecem, cheios de senso de oportunidade, em protegê-lo. É o jogo que está sendo jogado neste momento. Toda a “comunidade do futebol” está puxando da gaveta os seus exemplares de “A Arte da Guerra” de Sun Tzu e de “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel - ou talvez algum livro de autoajuda ensinando a ser bilionário - e estudando as jogadas possíveis para aproveitar a brecha que o próprio mandatário abriu contra si mesmo. Como quase tudo no assunto política, convém olhar o cenário sem moralismos ou bom-mocismos. A UEFA hoje busca criar as condições para uma destituição, mas é muito improvável que consiga levar asiáticos, africanos e sul-americanos a topar uma jogada dessas. Primeiro, porque uma eleição é um momento de barganha, de ascensão e de exposição de atributos políticos. É uma janela especial para se gabaritar como grande aliado, como liderança de bloco ou até mesmo como sucessor. Segundo, porque as opções ofertadas pela UEFA sempre serão opções da UEFA: uma confederação que exerce poder assimétrico dentro do quadro das federações, que sempre tentou dominar o ecossistema do futebol de forma ensimesmada, que concentra recursos e visibilidade e, pior que tudo, se pinta como guardiã moral do futebol global - quando representa exatamente o oposto. Nenhuma parte do mundo acredita que ganharia grandes coisas com uma vitória da UEFA. Ainda assim, convém destacar que a decisão de boicote, idealizada por Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, não era tão certa até que as únicas duas mulheres do conselho da entidade fizessem isso se tornar um caminho urgente e necessário, para evitar a naturalização da jogada de Infantino no cenário europeu. A galesa Laura McAllister, vice-presidente da UEFA desde 2023, e Lise Klavenesse, presidente da federação de futebol da Noruega desde 2022, foram as protagonistas de uma medida drástica que nenhuma outra federação arriscou propor. Separadas, pouquíssimas federações têm se exposto sobre o assunto, preservando suas chances. Em uma carta enviada à FIFA, vazada para a imprensa, a UEFA ameaçou medidas legais contra 18 pessoas que teoricamente estariam a par do projeto da FFE, pressionando-as a preservar todos os documentos e trocas de mensagens relacionadas ao assunto antes de sua exposição pública. A entidade alegou que qualquer omissão, ocultação ou alteração será considerado um ato de destruição de provas. Isso ocorre por uma razão conhecida nesta quinta-feira (6), em reportagem de Tariq Panja, do NY Times: às vésperas da final da Copa do Mundo, cinco diretores da FIFA foram convocados a uma reunião organizada às pressas em Manhattan, onde o projeto da FFE foi colocado para deliberação. De acordo com Panja, votaram a favor o secretário-geral Mattias Grafstrom, o chefe do departamento jurídico Emilio Garcia e o chefe de gabinete Dan O’Toole. Os dois primeiros negaram posteriormente que estiveram a par do assunto. O’Toole, por sua vez, teria tido um “papel significativo no projeto”, de acordo com as fontes ouvidas pela reportagem. Do lado contrário ao projeto, estiveram o diretor financeiro Thomas Peyer e o diretor de operações Kevin Lamour, que, como já dito, também alegou desconhecimento sobre o FFE antes do seu vazamento. A Copa do Mundo de 2030 pode ter sedes definidas, mas várias questões ainda estão em aberto. Há a chance de nova ampliação do número de participantes, de 48 para 64; há a indefinição de quantos jogos serão disputados nas sedes sul-americanas Argentina, Paraguai e Uruguai; e há a indefinição sobre cidade que receberá a grande final. Ao convocar uma reunião no Marrocos, uma das seis sedes confirmadas, sugerindo que o país africano poderia sediar a grande final, Infantino tentou colocar Espanha e Portugal, as outras duas, contra a parede. Tudo isso (e um pouco mais) virou carta na manga de Infantino para tentar reverter os efeitos do desastroso projeto da FFE, tentando manter o seu candieiro aceso. Ainda há muita coisa a oferecer e muita gente disposta a receber agrados, mas parece está ficando cada vez mais caro – e não surpreendentemente tende a dar certo.