Entenda por que contrato com Ticketmaster virou “salvação” para o São Paulo Uma inspiração, uma mensagem despretensiosa e um impulso. Foi assim que Débora França, de 29 anos, criou o Tricoler, um clube de leitura para torcedores do São Paulo. O que ela não esperava era ver as vagas se esgotarem em menos de uma semana. A princípio, Débora pensou em 100 vagas para um grupo de WhatsApp destinado a debater um livro por mês. Uma semana depois da primeira postagem, porém, mais de 600 pessoas demonstraram interesse em participar do clube – o que fez a designer triplicar as vagas. 🔍 adicione o ge nas suas fontes favoritas do Google + Siga o canal ge São Paulo no WhatsApp – Pensei que fosse bater umas 15 pessoas, e para mim já era o suficiente. De repente, um turbilhão de notificações, DMs, quase 100 pessoas no formulário (no primeiro dia). Fiquei assustada, e as coisas não paravam – contou ao ge. – Sempre gostei muito de ler, mas sempre tive um problema com foco e atenção. Nesta era de telas, eu me vi muito viciada, e esse hobby acabou se desfazendo. Débora se viu novamente engajada na literatura justamente por meio das telas: foi na rede social X, debatendo sobre conteúdos da Bienal do Livro, que acabou se deparando com postagens de clubes de leitoras do Atlético-MG. – As meninas tinham recebido ameaças e estavam desabafando. Resolvi me inteirar sobre a situação, pois achei um absurdo. Nunca imaginei que a discussão sobre violência no futebol acabaria englobando ameaças por um projeto lindo só porque a ideia inicial veio do rival. O projeto é o Galeitura, o clube do livro que surgiu em homenagem ao meia Gustavo Scarpa, depois de o jogador começar a resenhar livros em seu próprio canal no YouTube. Galeitura: como Scarpa furou a bolha e influenciou criação de clubes do livro de torcidas pelo país Reprodução/Gustavo Scarpa Débora ainda não conhecia, mas se apaixonou pela ideia e começou a pesquisar sobre. Chegou a comentar em um dos posts que seria interessante um grupo de leitura para torcedoras do São Paulo e passou a maturar essa ideia. Olhando para sua estante cheia de livros intocados e uma vontade já antiga de retomar o hábito da leitura, Débora tomou uma decisão. – Eu pensei: por que não? Costumo interagir bastante em uma comunidade do São Paulo no Reddit, mas a situação atual do clube está desanimando muita gente. Comentamos jogos, mas você nota que está todo mundo cansado. A cada notícia de bastidores dá mais desânimo. – Saí do Morumbis depois da vitória sobre o Inter com um gosto agridoce na boca e me vi com medo de estar perdendo a conexão com o São Paulo, que é um dos elos mais fortes que tenho com meu pai e a memória dele. Débora França e o pai no túnel do Morumbis Arquivo Pessoal A solução encontrada por Débora para se manter cercada por uma comunidade tricolor foi criar um grupo de são-paulinos para falar de outro assunto, no caso, a literatura. Assim surgiu o Tricoler. – Juntar os torcedores para conversar sobre algo que não seja sempre as mesmas notícias desastrosas. No dia 23, criei a conta. Eu não planejei nada, só sabia que ia criar um grupo para discutir os capítulos, porque era como já vi alguns clubes funcionarem. Débora, então, fez um formulário para quem tivesse interesse em participar do grupo. Inicialmente, ela não tinha muito onde divulgar, mas começou mesmo assim no X. Em pouco tempo, as notificações explodiram. – Eu nem tinha um texto de apresentação. Fiz correndo e fui sincera: falei sobre como meu amor pelo São Paulo veio do meu pai e o incentivo à leitura também, e como o objetivo do clube era esse, unir o amor pelo São Paulo e tornar a leitura um hábito saudável. Sempre acreditei nele como forma de criar repertório cultural, social e político, e isso falta na sociedade ultimamente. Mais do São Paulo: + Conselho aprova contrato com a Ticketmaster, e São Paulo vai receber R$ 140 milhões + Ex-São Paulo, Araruna revela drama que abreviou a carreira no futebol e usa IA para se reinventar O crescimento assustou Débora. “Misericórdia, não vou dar conta sozinha”, ela pensou. Olhando as mensagens, ela recrutou três torcedoras para a organização: Vanessa Dias, Camila Machado e Caroline Moraes. Vanessa tem 31 anos, mora em Araras, é formada em Relações Públicas e trabalha como produtora de conteúdo sobre o São Paulo há oito anos. Ela começou a ler incentivada pela mãe e foram os livros que a ajudaram a superar a perda dela há 11 anos. Vanessa tem ajudado na divulgação do projeto. Camila tem 27 anos, mora na capital paulista, é formada em Letras e começou a cursar Biblioteconomia neste ano. Ela admite que o contexto atual do clube a afastou e quer se reaproximar por meio da comunidade formada no clube. – Apesar de toda decepção com o contexto atual do clube, que gerou um grande afastamento do esporte na minha vida, vi no projeto uma oportunidade. Queria colaborar na curadoria literária para atingir o maior número de torcedores possível e me reaproximar desse clube que tanto amo – afirmou Camila ao ge. Já Caroline tem 21 anos e mora no Rio de Janeiro, onde cursa Biotecnologia. Ela é a única que não trabalha em uma área com ligação direta com o projeto, mas vê justamente nisso a força do grupo de leitura: “Unir pessoas diferentes, com histórias e experiências diferentes, que compartilhem o amor pelo São Paulo e pela leitura”, definiu ao ge. Tricoler, clube de leitura do São Paulo Reprodução/@cl.tricoler O primeiro livro escolhido pelo grupo foi “A Cabeça do Santo”, de Socorro Acioli, e a leitura e debates começam a partir do dia 4 de outubro. A ideia é ter meses temáticos para leituras são-paulinas em meses determinados. – Estou assustada, mas ao mesmo tempo empolgada com os rumos que isso pode levar. Acho que só tem coisas positivas a sair de pessoas que se unem para ler. É um movimento de várias torcidas se unindo. Achei linda a atitude da Galeitura e acredito que eles não esperavam tudo que o movimento desencadeou. Muitos falaram da Galeitura no formulário e como isso os inspirou também a voltarem a ter o hábito ou começar a tê-lo. + Leia mais notícias do São Paulo Como funciona o clube O clube terá um livro definido por mês. As indicações partem dos membros e também passam por uma curadoria da equipe de coordenação. A ideia é que os títulos sejam acessíveis. São definidas quatro opções, que vão para votação no perfil do clube no X. A definição sai com 15 dias de antecedência. Após definido o livro, ele é dividido em quatro partes – uma por semana do mês. Aos finais de semana, há um horário marcado para debate daquela parte específica do livro lida na semana anterior. No último fim de semana, há o debate do livro como um todo. O Tricoler conta com dois grupos de WhatsApp, sendo um aberto para bate-papo em geral e outro específico para os debates semanais. É permitido debater os livros no grupo geral, mas o debate oficial é no grupo específico, que fica fechado e é aberto somente para esse fim aos finais de semana, o dia todo. Com mais de 600 interessados, o clube vai sortear 300 para participarem do grupo no aplicativo de mensagens. Mais vagas podem ser disponibilizadas no futuro e haverá moderação para retirar quem estiver inativo e dar espaço para outro interessado. Quem ficar de fora dos grupos poderá participar dos debates abertos no X e no Instagram. 🎧 Ouça o podcast ge São Paulo🎧 + Assista: tudo sobre o São Paulo no ge, na Globo e no sportv