Pureza faz seu primeiro jogo no Maracan Fotos, autógrafos, fãs gritando o nome. Foi assim que o Maracanãzinho acolheu o líbero Douglas Pureza. Em sua primeira temporada na seleção principal do Brasil, o carioca de 29 anos teve mais uma estreia. Desta vez, em um dos templos do vôlei mundial, localizado a cerca de 15km do Morro do Cantagalo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde cresceu. O acolhimento atual contrasta com o início da trajetória na modalidade, algo comum em tantas histórias de atletas de alto rendimento no Brasil, como falta de estrutura e incentivo financeiro. No caso dele, porém, outro desafio se impôs - e teima em ressurgir com frequência: a homofobia. Em conversa exclusiva com o ge após a tranquila vitória sobre a Bolívia por 3 sets a 0, o atleta citou momentos marcantes da carreira até chegar nesta partida em casa. - É a realização de um sonho. Maracanãzinho, a casa do vôlei, para mim, que sou carioca e sempre vim desde a minha infância acompanhar os jogos da Superliga feminina. Ficava na grade, pedindo foto e autógrafo. Vinha no masculino também. Saía do treino, vinha direto pra cá. Estar aqui hoje, pisando pela seleção brasileira, em um Sul-Americano, campeonato importantíssimo, que, se Deus quiser, vai dá nossa vaga para Los Angeles, é a realização de um sonho. (...) Estou em casa - relatou, citando a oportunidade de ter a família acompanhando estes momentos de perto. Pureza entrou no segundo set de Brasil x Bolívia Dhavid Normando/FV Imagem/CBV O líbero conta que a bicampeã olímpica Fabi Alvim, que atuava na mesma posição em quadra, era um dos principais alvos dos seus pedidos para fotos. Atualmente, em vez de pedir, ele é o solicitado. Assim que a partida terminou ficou por vários minutos atendendo a torcida. Ainda com a bola rolando, foi acionado no início do segundo set pelo técnico Bernardinho e permaneceu até o match point. - É loucura, né?! A gente, às vezes, até esquece desses momentos lá de trás, que vinha e ficava igual a eles assim para pedir fotos e autógrafos. Eu já estive neste lugar - recorda Pureza, que ao lado de Bryan, Gabriel Bieler, Barreto e Samuel, foi convocado pela primeira vez neste ano. Para chegar até aqui, a aproximação com o vôlei começou nas areias da praia de Ipanema, mais precisamente no Posto 8. Neste local, os pais trabalham com aluguel de barracas e vendas de bebidas desde a infância de Pureza. Em meio aos compromissos dos adultos, ele aproveitava para brincar, por exemplo, de vôlei. Depois, por meio de projetos sociais, o que era recreação foi se tornando cada vez mais sério até chegar na base do Flamengo e, em 2014, no Sesi-SP, onde fez a transição para o profissional e permanece até hoje. Pureza foi convocado pela primeira vez neste ano para os treinos visando a VNL Dhavid Normando/FV Imagem/CBV - A gente não tinha muito luxo para poder arcar com uma viagem para jogar uma competição. Até mesmo para ir treinar. A minha primeira seleção carioca, o técnico era de Niterói. Então, tinha que me deslocar. Era muito longe, tinha que pagar barca ou ônibus, o lanche depois do treino. Esses custos eram muito difíceis para mim na época - relata, citando o apoio familiar. Ele é irmão de Dayane Pureza, que chegou a atuar pela base do Fluminense, e é casada com o ponteiro Gabriel Vaccari, também no Sesi-SP. Preconceito e ataques nas redes sociais Ainda no início da caminhada no esporte, surgiu uma busca por referências. Para além da posição dentro de quadra ou qualidades técnicas, o líbero gostaria de se enxergar nos ídolos. Atualmente, Pureza e os companheiros Douglas Souza, Maique Reis e Adriano Xavier são os primeiros jogadores da seleção assumidamente gays. Souza, inclusive, também é o primeiro a ser medalhista olímpico. Há alguns anos, porém, este cenário era bem diferente. - No início da minha carreira, era este conflito de não enxergar ninguém igual a mim, de ter esta consciência já: "Putz, se eu for muito eu, talvez não consiga chegar num time adulto, num profissional", que sempre foi meu sonho. "Talvez eu não consiga ir para este time porque meu trejeito talvez não agrade dirigentes ou técnicos". Sempre tentei me podar muito e isso foi prejudicial para mim, mas hoje sou outra pessoa. + Oposto colombiano marca ponto com ombro no Pré-Olímpico Masculino de vôlei; assista + "A grande revelação do ano": conheça Bryan, oposto de 2,04m que estreou como titular do Brasil + Estreia do Brasil no Pré-Olímpico tem boladas em Bernardinho, pacto e surpresa com levantador + Douglas Souza explica ausência no Pré-Olímpico, mira volta à seleção e revela mensagem de Bernardinho + Entenda como Pré-Olímpico pode mudar planejamento da seleção masculina de vôlei até Los Angeles O atleta citou um período complicado de ataques severos pelas redes sociais recentemente. Na véspera da estreia do elenco na Liga das Nações (VNL), em junho, uma postagem do perfil oficial do Volleyball World Brasil recebeu centenas de comentários homofóbicos. A publicação divulgava bastidores do ensaio fotográfico para o lançamento da camisa com detalhes nas cores do arco-íris, em referência à bandeira LGBTQIAPN+, uma iniciativa da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) e a fornecedora de material esportivo em alusão ao Dia Mundial do Orgulho. - Espero que a gente passe por isso para que outras pessoas lá na frente não passem. Passem metade, talvez. (...) Foram bem pesados, diretamente para a gente como pessoa, não como atleta, não como a gente performou dentro de quadra, mas já são águas passadas. A gente está em outro momento agora. Foco completamente no Sul-Americano para esta vaga de Los Angeles - afirmou. Quando iniciou a trajetória com a camisa verde-amarela nos treinos para a última edição da VNL encontrou um ambiente bem diferente daquele post da rede social. Com a experiência na base, conhecia a maior parte dos jogadores. Na comissão técnica, exalta a receptividade e união do grupo. Conquistando seu espaço na vaga disputada com o amigo Maique, ele tenta transmitir a outros jovens gays que almejam iniciar no esporte que, apesar das dificuldades, vale a pena persistir. Pureza atende assina camisas de torcedores após Brasil 3 x 0 Bolívia Júlio César Barreto - Me sinto muito lisonjeado para quem consegue enxergar isso (referência) em mim, porque eu já tentei enxergar quando estava começando e não tinham muitas pessoas. Tento sempre passar para as pessoas com quem tenho contato para continuar. É difícil. Realmente as portas se fecham para gente por causa de um trejeito, por causa de uma dança, de uma jogada de cabelo... Coisas simples. Nossa existência é sempre julgada. É muito importante que a gente construa isso, esteja ocupando esses lugares. Sou muito feliz de estar vivendo isso com meus colegas - relatou. Ao final da conversa, o ge perguntou qual mensagem o Pureza, que começa a realizar sonhos e tem uma participação olímpica como um dos próximos objetivos, deixaria para o Pureza sonhador que conheceu o vôlei nas areias de Ipanema: - Continue firme. Vai dá tudo certo. Seja o que você é. Não esconda de ninguém porque vai dá certo. Você é bom. Acredite nisso. Seja feliz.
Cria de favela do Rio, líbero Pureza estreia no Maracanãzinho e lembra preconceito: "Tentei me podar"
Pureza faz seu primeiro jogo no Maracan Fotos, autógrafos, fãs gritando o nome. Foi assim que o Maracanãzinho acolheu o líbero Douglas Pureza. Em sua primeira temporada na seleção principal do Brasil, o carioca de 29 anos teve mais uma estreia. Desta vez, em um dos templos do vôlei mundial, localizado a cerca de 15km do Morro do Cantagalo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde cresceu. O acolhimento atual contrasta com o início da trajetória na modalidade, algo comum em tantas histórias de atletas de alto rendimento no Brasil, como falta de estrutura e incentivo financeiro. No caso dele, porém, outro desafio se impôs - e teima em ressurgir com frequência: a homofobia. Em conversa exclusiva com o ge após a tranquila vitória sobre a Bolívia por 3 sets a 0, o atleta citou momentos marcantes da carreira até chegar nesta partida em casa. - É a realização de um sonho. Maracanãzinho, a casa do vôlei, para mim, que sou carioca e sempre vim desde a minha infância acompanhar os jogos da Superliga feminina. Ficava na grade, pedindo foto e autógrafo. Vinha no masculino também. Saía do treino, vinha direto pra cá. Estar aqui hoje, pisando pela seleção brasileira, em um Sul-Americano, campeonato importantíssimo, que, se Deus quiser, vai dá nossa vaga para Los Angeles, é a realização de um sonho. (...) Estou em casa - relatou, citando a oportunidade de ter a família acompanhando estes momentos de perto. Pureza entrou no segundo set de Brasil x Bolívia Dhavid Normando/FV Imagem/CBV O líbero conta que a bicampeã olímpica Fabi Alvim, que atuava na mesma posição em quadra, era um dos principais alvos dos seus pedidos para fotos. Atualmente, em vez de pedir, ele é o solicitado. Assim que a partida terminou ficou por vários minutos atendendo a torcida. Ainda com a bola rolando, foi acionado no início do segundo set pelo técnico Bernardinho e permaneceu até o match point. - É loucura, né?! A gente, às vezes, até esquece desses momentos lá de trás, que vinha e ficava igual a eles assim para pedir fotos e autógrafos. Eu já estive neste lugar - recorda Pureza, que ao lado de Bryan, Gabriel Bieler, Barreto e Samuel, foi convocado pela primeira vez neste ano. Para chegar até aqui, a aproximação com o vôlei começou nas areias da praia de Ipanema, mais precisamente no Posto 8. Neste local, os pais trabalham com aluguel de barracas e vendas de bebidas desde a infância de Pureza. Em meio aos compromissos dos adultos, ele aproveitava para brincar, por exemplo, de vôlei. Depois, por meio de projetos sociais, o que era recreação foi se tornando cada vez mais sério até chegar na base do Flamengo e, em 2014, no Sesi-SP, onde fez a transição para o profissional e permanece até hoje. Pureza foi convocado pela primeira vez neste ano para os treinos visando a VNL Dhavid Normando/FV Imagem/CBV - A gente não tinha muito luxo para poder arcar com uma viagem para jogar uma competição. Até mesmo para ir treinar. A minha primeira seleção carioca, o técnico era de Niterói. Então, tinha que me deslocar. Era muito longe, tinha que pagar barca ou ônibus, o lanche depois do treino. Esses custos eram muito difíceis para mim na época - relata, citando o apoio familiar. Ele é irmão de Dayane Pureza, que chegou a atuar pela base do Fluminense, e é casada com o ponteiro Gabriel Vaccari, também no Sesi-SP. Preconceito e ataques nas redes sociais Ainda no início da caminhada no esporte, surgiu uma busca por referências. Para além da posição dentro de quadra ou qualidades técnicas, o líbero gostaria de se enxergar nos ídolos. Atualmente, Pureza e os companheiros Douglas Souza, Maique Reis e Adriano Xavier são os primeiros jogadores da seleção assumidamente gays. Souza, inclusive, também é o primeiro a ser medalhista olímpico. Há alguns anos, porém, este cenário era bem diferente. - No início da minha carreira, era este conflito de não enxergar ninguém igual a mim, de ter esta consciência já: "Putz, se eu for muito eu, talvez não consiga chegar num time adulto, num profissional", que sempre foi meu sonho. "Talvez eu não consiga ir para este time porque meu trejeito talvez não agrade dirigentes ou técnicos". Sempre tentei me podar muito e isso foi prejudicial para mim, mas hoje sou outra pessoa. + Oposto colombiano marca ponto com ombro no Pré-Olímpico Masculino de vôlei; assista + "A grande revelação do ano": conheça Bryan, oposto de 2,04m que estreou como titular do Brasil + Estreia do Brasil no Pré-Olímpico tem boladas em Bernardinho, pacto e surpresa com levantador + Douglas Souza explica ausência no Pré-Olímpico, mira volta à seleção e revela mensagem de Bernardinho + Entenda como Pré-Olímpico pode mudar planejamento da seleção masculina de vôlei até Los Angeles O atleta citou um período complicado de ataques severos pelas redes sociais recentemente. Na véspera da estreia do elenco na Liga das Nações (VNL), em junho, uma postagem do perfil oficial do Volleyball World Brasil recebeu centenas de comentários homofóbicos. A publicação divulgava bastidores do ensaio fotográfico para o lançamento da camisa com detalhes nas cores do arco-íris, em referência à bandeira LGBTQIAPN+, uma iniciativa da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) e a fornecedora de material esportivo em alusão ao Dia Mundial do Orgulho. - Espero que a gente passe por isso para que outras pessoas lá na frente não passem. Passem metade, talvez. (...) Foram bem pesados, diretamente para a gente como pessoa, não como atleta, não como a gente performou dentro de quadra, mas já são águas passadas. A gente está em outro momento agora. Foco completamente no Sul-Americano para esta vaga de Los Angeles - afirmou. Quando iniciou a trajetória com a camisa verde-amarela nos treinos para a última edição da VNL encontrou um ambiente bem diferente daquele post da rede social. Com a experiência na base, conhecia a maior parte dos jogadores. Na comissão técnica, exalta a receptividade e união do grupo. Conquistando seu espaço na vaga disputada com o amigo Maique, ele tenta transmitir a outros jovens gays que almejam iniciar no esporte que, apesar das dificuldades, vale a pena persistir. Pureza atende assina camisas de torcedores após Brasil 3 x 0 Bolívia Júlio César Barreto - Me sinto muito lisonjeado para quem consegue enxergar isso (referência) em mim, porque eu já tentei enxergar quando estava começando e não tinham muitas pessoas. Tento sempre passar para as pessoas com quem tenho contato para continuar. É difícil. Realmente as portas se fecham para gente por causa de um trejeito, por causa de uma dança, de uma jogada de cabelo... Coisas simples. Nossa existência é sempre julgada. É muito importante que a gente construa isso, esteja ocupando esses lugares. Sou muito feliz de estar vivendo isso com meus colegas - relatou. Ao final da conversa, o ge perguntou qual mensagem o Pureza, que começa a realizar sonhos e tem uma participação olímpica como um dos próximos objetivos, deixaria para o Pureza sonhador que conheceu o vôlei nas areias de Ipanema: - Continue firme. Vai dá tudo certo. Seja o que você é. Não esconda de ninguém porque vai dá certo. Você é bom. Acredite nisso. Seja feliz.
