Ana Marcela fala sobre ouro olímpico, burnout e recuperação emocional O mar sempre foi um norte para Ana Marcela Cunha. Ainda bebê, engatinhava para a água quando ia à praia com os pais. A curiosidade, a natureza, a paz, tudo isso atraiu a atenção. Foi um caminho natural para se tornar atleta de maratona aquática. Até chegar ao auge, com o ouro olímpico em Tóquio 2020, e precisar, depois, refazer rotas para voltar a ter prazer com o que a impulsionou. Ao "Abre Aspas", do ge, Ana Marcela revela bastidores do fim da parceria com o técnico Fernando Possenti logo após a maior conquista da carreira. Explica como a relação se esgotou na sequência daqueles Jogos Olímpicos em que foi ao topo do pódio e como recuperou a motivação para seguir no esporte. “Foi a prova perfeita”: Ana Marcela relembra ouro olímpico em Tóquio + Nalbert cita mágoa com Bernardinho por corte, critica CBV e indica nomes para treinar o Brasil + Edinanci Silva repassa trajetória de pioneirismo, fome e preconceito: "Sempre me senti diferente" + Hortência revela conselho de Pelé e lembra volta às quadras após ser mãe: "Hoje, talvez, seria cancelada" + Pioneiro do cancelamento, Fratus cita polêmicas, rivalidade com Cielo e admite: "Eu era uma granada" - Infelizmente, logo após a medalha olímpica, houve uma frase que foi uma virada de chave, que não foi tão positiva para mim. Eu tinha acabado de sair ali da água, ainda não tinha nem dado entrevista, não tinha falado com ninguém, só estava com o pessoal do Brasil. O Fernando vira e fala assim: “Agora falta (ganhar) os 10km do Mundial”, porque até hoje não ganhei medalha de ouro (nessa prova) no Campeonato Mundial. Isso me fez deixar de curtir a minha medalha de ouro olímpica, sabe? Pareceu que foi só uma conquista, passou e vamos para a próxima - conta ela. Ana Marcela no Abre Aspas André Durão Ana Marcela cita outro episódio que, segundo ela, contribuiu para o fim do trabalho com Possenti. - Em 2022, tive uma etapa de Copa do Mundo, em Portugal. Quando acabou a prova, virei para ele e falei assim: “Não estou conseguindo levantar meu braço”. Aí, começaram os nossos problemas. Hoje, eu falo tranquila. Depois de um tempo, a gente digere, consegue pensar no lado positivo de tudo o que aconteceu. Era uma dor de lesão, e vivi uns três meses tomando remédio para tirar dor. Era um remédio fortíssimo, que hoje nem é permitido. Não conseguia fazer nada sem tomar o remédio. O Fernando achava que eu estava fazendo um pouco de corpo mole - diz Ana Marcela. - Estou muito feliz onde estou e sei que ele está muito feliz lá também, fazendo o que gosta. Infelizmente, hoje é isso. Quanto maior a distância que tivermos, melhor. Ana Marcela no Abre Aspas André Durão + Larri Passos explica fama de pitbull do Guga, revela recusa a Djoko e diz que ATP protegia gringos: "Máfia" + Jackie Silva critica biquíni no pódio e relata brigas com Sandra: "Falei que não queria mais jogar com ela" + Tande chora ao lembrar infarto e se arrepende de treinos à la Romário: "Poderia ter sido maior do que fui" + Bruninho revela cobrança extrema de Bernardinho no início e exorciza Londres 2012: "Fundo do poço" Na entrevista de mais de duas horas, a baiana de Salvador diz que a diversão vem com as provas mais longas. A nadadora soma cinco de seus sete ouros em Mundiais na distância de 25km. Em Olimpíadas, a maratona aquática é disputada apenas em 10km. Para Ana Marcela, competições mais demoradas são um "sinal de amor ao esporte". Mesmo com a vida dedicada às águas abertas, ela conta que não fez muitos amigos entre as adversárias. - O europeu não quer perder para um brasileiro. Ele pode até perder para um americano, um chinês, um australiano, mas perder para um brasileiro, a galera meio que fica chateada, sabe? Lésbica assumida, Ana Marcela afirma que a medalha olímpica a fez aparecer mais para o público e, com isso, a atleta perdeu o medo de falar da sexualidade e de levantar bandeira. Hoje, ela conta com a esposa, Juliana, como a responsável por sua preparação física. Sobre a participação de atletas trans, Ana aponta um "assunto delicado", mas frisa que o esporte pode salvar vidas e que não se deve proibir qualquer um de fazer o que ama. Para a menina que se aventurava pelo mar e conquistou tudo o que podia como atleta, ainda há espaço para realizar sonhos. Foi assim com a travessia do Canal da Mancha, realizada em julho deste ano. A brasileira nadou 42,9km em 8h25m29s para estabelecer o recorde sul-americano entre homens e mulheres. Mais que o tempo, ela quis provar que podia nadar da Inglaterra até a França, no seu ritmo. A menos de dois anos para Los Angeles 2028, o desejo olímpico resiste. O mar segue sendo o norte para Ana Marcela Cunha. Ficha Técnica Nome: Ana Marcela de Jesus Soares da Cunha Nascimento: 23 de março de 1992, em Salvador Participações em Olimpíadas: Pequim 2008 (5º lugar), Rio 2016 (10º lugar), Tóquio 2020 (ouro), Paris 2024 (4º lugar) - a prova olímpica é disputada na distância de 10km Principais títulos: Campeã olímpica em Tóquio 2020, 7 ouros em Campeonatos Mundiais (nos 5km em Gwangju 2019 e Budapeste 2022 e nos 25km em Xangai 2011, Kazan 2015, Budapeste 2017, Gwangju 2019 e Budapeste 2022), 2 pratas em Mundiais (nos 10km em Barcelona 2013 e nos 5km por equipes em Kazan 2015), 7 bronzes em Mundiais (nos 5km em Barcelona 2013, Budapeste 2017, Fukuoka 2023 e Doha 2024 e nos 10km em Kazan 2015, Budapeste 2017 e Budapeste 2022), campeã dos Jogos Pan-Americanos de Lima 2019 (10km) e prata no Pan de Santiago 2023 + Vanderlei Cordeiro chora ao citar infância na lavoura: "Minha mochila era um pacote de arroz" + Virna rejeita rótulo de seleção "amarelona" e defende Mari: "Foi um crime o que fizeram com ela" + Giba conta bastidores de time "fora da curva" e admite entregada em 2010: "Não vamos ser hipócritas" + Varejão conta vida de glamour da NBA, conexão com LeBron e tática contra rivais: "Cabelo na cara" Abre Aspas: Ana Marcela Cunha ge: Qual foi o seu primeiro contato com o mar? O que você lembra? - O que mais me marcou na minha vida em termos de água, natação e decidir querer nadar no mar foi em 2000. Eu tinha oito anos quando fui nadar no mar numa competição. Antes disso, só tenho muitas lembranças de férias em família, na ilha de Itaparica, em Salvador, de estar no mar, na água, brincando. É, realmente, um pouco da história mais de ver as fotos e as histórias contadas pelos meus pais. Muitos dizem que, até antes de nadar, eu já estava (no mar). Meus pais iam para a praia. Na barriga da minha mãe, toda vez que minha mãe já deitava no sol, eu começava a tremer lá dentro, já queria, ficava agoniada. E assim que eu nasci. Com mais ou menos oito, nove meses, meus pais foram para férias. Pelas fotos, eles meio que fizeram um buraco, assim, na areia, colocaram uma piscininha de plástico, um pouco de água e, como eu já gostava de água e tal, me deixaram ali. O que contam é que eu não ficava, saía engatinhando direto para o mar. Então, acho que a ligação já foi desde antes de nascer, mas sempre teve um pezinho com algo do mar, com a natação, com a água. Ana Marcela no Abre Aspas André Durão Você teve medo do mar? - Na verdade, eu sempre tive muita curiosidade do mar. Pelo contrário, eu não tinha essa noção de que tem tubarão, água-viva, animais que são um pouco maiores, como a arraia, que sempre é um medo, né? Quando criança, não tinha esse medo. Eu sempre tive vontade de estar no meio dos peixes, na natureza. Nunca fui mais da parte terrestre, de fazer muitas trilhas ou coisas assim no passado, mas sempre tive esse contato muito forte com o mar. Acho que eu tinha muita curiosidade de poder voltar, ver o peixe, estar com os animais. E isso foi o que mais, no começo, me chamou a atenção do esporte e depois eu entendi que se chamava maratona aquática. Na maratona aquática, já houve algum momento em que você se sentiu paralisada no mar? - Já me perdi várias vezes nos treinos, por exemplo, antes das provas. Como nadar ali no Porto da Barra, em Salvador, onde você se perde no sentido das coisas especiais, da magnitude, que é de poder estar ali observando os corais. Nadei em Seychelles, que é uma ilha na África. Para mim, foi uma das coisas mais lindas que eu já pude ver, o mar cristalino. Foi uma das vezes em que eu vi um tubarão, mas pequenininho. Acho que é muito mais nesse quesito de observar, de ficar mais deslumbrada com aquilo e poder parar para imaginar quanto tempo não se levou para isso estar aqui, para ter sido criado pela natureza, como é o ecossistema marinho. - Tive medo uma vez na vida, posso falar, na verdade. Eu estava em Noronha, de férias. Não me recordo o nome da praia agora. Eram, mais ou menos, umas cinco, seis horas da tarde. Na hora em que a gente entrou no mar, a primeira onda que a gente pulou, para furar a onda, passou um tubarão. Foi a vez em que eu não parei para pensar, não fiquei paralisada. Da mesma forma que eu entrei, eu só voltei, peguei a outra onda, saí correndo e falei: “Mano, tubarão, tubarão, tubarão!”, E o pessoal: “Não, fica tranquila que é comum esse horário, eles voltam para poder dormir”. Eu falei: “Ah, dormir, dormir...vou eu para casa!” Acho que foi a única vez em que eu tive um encontro assim. Ana Marcela cruza com peixe durante a vitória em Tóquio Jonne Roriz/COB O quanto o mar revigora? - De 80% a 90%, os nossos treinos são feitos na piscina, até por causa de marcadores, de ter um pouco mais de controle sobre o que a gente está fazendo, sobre a metragem, sobre o que a gente tem que nadar de ritmo. A piscina é aquela coisa meio chata, monótona, de você estar sempre indo e voltando com um monte de ladrilho, numa linha. O comum entre o ambiente da natação (na piscina) e o da maratona é o silêncio. Porque, quando você está nadando, é só você, você mesmo, e o que vem na sua cabeça, os seus pensamentos. Na piscina, principalmente, é mais silêncio ainda dentro d'água. Fora, você escuta um pouco mais do técnico, você tem os seus amigos ali que estão conversando. O mar, por exemplo, você ainda tem um pouco do silêncio, que às vezes vem junto com o barulho da onda, a viagem ali de você ter visto um animal, um peixe ou alguma coisa. Você tem mais atenção no mar, tem alguns pontos para onde você está nadando, aonde você está indo. No mar, você sempre vai se sentir um pouco mais livre. Sou muito conectada com o mar, acho que eu tenho ali uma conexão muito forte, seja com o Iemanjá, seja com os meus orixás, eu acredito muito. O que passa na sua cabeça quando está nadando trajetos longos no mar? - A maior diferença do treino é que a gente está ali muito pressionado a nadar no ritmo, a ter um treinamento muito específico, a ter objetivos a cada tiro, a cada série. No treino, a cabeça está focada justamente na alta performance o tempo inteiro, no melhor que a gente pode colher, no melhor que a gente pode fazer pensando na técnica. Existem dois tipos de pensamentos dentro da competição. O primeiro, quando a gente fala de 5km, 10km, porque são provas onde tem muita estratégia também das adversárias, em que você tem um pelotão muito forte, ritmo muito forte. E existe também o pensamento de quando você nada as provas um pouco mais longas, como os 25km, os 36km, os 40km agora do Canal da Mancha, que são pensamentos um pouco mais “quero nadar, quero completar”. É uma outra vibe até dos seus próprios adversários. Não é só a competição. Existe não só um pouco de companheirismo, porque sozinho você não consegue nadar 25km sozinho. É impossível. Você vai chegar uma hora em que você não consegue mais. Você vai cansar no ritmo de competição, o que eu quero dizer. Então, na verdade, você termina nadando junto, sempre com no mínimo cinco, seis atletas, até uma hora que um começa a cansar e vai perdendo o pelotão. Pódio dos 25km do Mundial de águas abertas nos 25km (Ana Marcela no centro) Maddie Meyer /Getty Images Você tem sete ouros em Mundiais, sendo cinco nas provas de 25km. De onde vem essa resistência? - Quando a gente fala dessas provas um pouco mais longas, a gente já não fala só de competição, a gente fala muito de amor ao esporte. Sempre nadei os 10km e os 5km, aí teve o Mundial em 2010, que eu vi a prova dos 25km, quando na verdade eu não sabia nem que existia a prova dos 25km no Mundial. Eu vi as meninas nadando e falei: “Cara, deve ser difícil, mas, pô, não é impossível, eu estou vendo as meninas fazendo. No próximo Mundial, eu quero poder nadar essa prova”. Que foi justamente o Mundial de 2011. Fiquei fora da classificação olímpica (para Londres 2012) e, cinco dias depois, eu estava nadando pela minha primeira vez a prova dos 25km, e saí com o ouro. Todo mundo falou: “Mas essa é uma prova que é totalmente mental”. E eu falei: “É, mas eu acho que nesses meus primeiros 25km, eu queria provar não só para mim, mas para outras pessoas que minha vaga infelizmente não veio, mas que eu estava pronta”. - A gente largou às seis horas da manhã, estava muito quente, a água já estava batendo 28 graus, eu nunca fui assim de nadar na água quente tão bem. Acho que, nesse momento, vi o quanto a minha cabeça era forte, porque um dia eu estava fora da Olimpíada, três dias depois, eu tinha sido sexta colocada nos 5km, e aí eu falei, "Cara, eu estou pronta". Nadei os 10km, melhorei nos 5km e eu comecei a acreditar. Fui, larguei, fui indo, sem tentar perder o pelotão para não nadar sozinha, quando virou a última boia, 400 metros para o final, era eu e mais uma só, eu falei, "Olha, é ouro ou prata, vamos tentar", e a gente foi. No finzinho, quando a gente entrou mais no funil, faltando os 50 metros, eu já estava um corpo à frente. Essa emoção foi o que me fez falar assim "Eu acho que eu sou boa, nessa coisa dos 25km, nessas provas mais longas". Aí realmente eu comecei a ver que, quando eu nadava nas provas mais longas era quando eu mais me divertia e que as provas de 5km e 10km não me traziam uma diversão, me traziam obrigação. Como é a preparação para lidar com a ansiedade e manter o foco na prova? - Ao longo dos meus anos na natação, eu sempre consegui me preparar mentalmente para aquele momento da competição. Já tive provas em que, faltando uns 40 minutos, 30 minutos antes da prova, eu deito. Às vezes eu chego a cochilar, de tão tranquila que eu consigo estar. Acho que eu não deixo o nervosismo vir, a ansiedade vir. Eu brinco: o brasileiro a gente tem um coração quente, o sangue ferve e, nessas horas, acho que eu tenho um pé na Europa, né? Porque eu sou assim, uma pessoa muito tranquila. Você olha para mim, por dentro até pode estar, mas quem olha para mim, vai falar assim "Cara, ela está muito convicta" . Isso quebra no atleta, no alto rendimento, quando você olha para o seu maior adversário e ele está com um semblante muito tranquilo, muito agressivo às vezes também, ao mesmo tempo, isso também gera medo, você vai quebrar justamente o seu adversário. Eu me preparo muito para isso e tento ao máximo não me importar com o que os outros estão fazendo, com o que os outros estão pensando, as atitudes. Eu me concentro muito também na questão da minha estratégia. Tento ao máximo participar, mas não ser a protagonista, sempre estar ali, tranquila, examinando o espaço e na hora que eu preciso ir para frente. Ana Marcela no Abre Aspas André Durão No polo aquático, jogadores se puxam debaixo d'água, se tocam, se provocam. Acontece isso na maratona aquática? - Na maratona, você está nadando um do lado do outro. Quanto mais alto o cotovelo, mais risco é de você terminar golpeando a sua adversária. E isso acontece, porque a maioria das atletas tem essa técnica do cotovelo mais alto. Por sorte, o meu nado me favorece na maratona, pelo meu braço vir um pouco mais na minha direção, eu consigo evitar o cotovelo da minha adversária. Não é um ponto proposital, que a pessoa vai e levanta o cotovelo para bater na cara. É porque faz parte da técnica do nado. Então, acontece muito o toque do cotovelo. E aí, a gente pode ter várias partes do corpo. O normal, ou é na direção do rosto, porque você está ali respirando bem no momento da braçada, ou nessa direção mais aqui da pelve, essa parte mais aqui, que é onde, tipo, às vezes está puxando também entre um e outro e termina dando um encontrão. Então, existe muito. A gente não pode nadar com nenhum tipo de acessório, brinco, piercing. Nada disso. A gente tem que tirar tudo. A pior parte que a gente tem é o contorno de boia. Quando a gente vira a boia, ao menos o começo, que, às vezes, tem 50 atletas para virar uma boia, é muito complicado e, realmente, tem muita porrada. É porrada. Vai pé, vai cotovelo, vai de cima, vem de baixo. Você não sabe de onde vem. Mas já teve alguma situação em que foi sentiu sendo provocada? - Tive duas. As duas bem nessa questão de chegada. E as duas muito parecidas. Eu estava um pouco mais à frente. Vieram duas italianas, e uma delas puxou meu pé. A outra terminou chegando junto comigo e batendo na frente. Só que na época não existia que, nem agora, tanta câmera. O juiz, como tinham quatro, cinco atletas, não conseguiu perceber o que tinha acontecido. Meio que ficou por aquilo, só que eu saí de primeiro para terceiro. E aquilo, no fim de prova, faltando 200 metros para a chegada, atrapalha. Foram as duas vezes que eu tive muito bem parecidas, que foi justamente um puxão, e a gente sabe quando é puxão e quando acontece da mão, no caso, tocar o pé. E, pô, toca o pé, tudo bem, você fica ali. É chato também, a gente tem isso. Eu sei que eu cheguei em terceiro, mas quem ganhou sabe que fez de errado. Então, para mim, isso é a maior lição que eu levo daquele momento ali, daquela prova. Como é o contato com as suas adversárias? - O europeu não quer perder para um brasileiro. Ele pode até perder para um americano, um chinês, um australiano, mas perder para um brasileiro, a galera meio que fica, sabe? Então, acho que eu terminei não criando tantos bons amigos. Não tenho problemas, não tenho, sei lá, tipo de ignorar as pessoas ou de não falar com elas, mas não tenho melhores amigos dentro do meu esporte. Não tenho, é óbvio que eu já tive oportunidade de treinar junto com outras atletas, morei dois anos na Itália, treinei com o pessoal da Itália. Óbvio, existe muito respeito, muita competitividade. Acho que termina que a galera tem, sei lá, uma raiva ou alguma coisa de quando a gente é bom, sabe? Dar um parabéns, acho que isso é óbvio dentro do esporte, é o mínimo que você tem que fazer. Ana Marcela no Abre Aspas André Durão Vamos ao seu ouro olímpico em Tóquio. Você sentiu que era o seu dia? - Eu estava muito bem preparada já, em 2020, eu estava simplesmente voando, eu já falava "Cara, vai ser difícil alguém ganhar, vai ser difícil alguém ganhar". Infelizmente, veio a pandemia. Eu passei por muita coisa, esse momento, tipo, não é agora, não é para ser agora. Acho que isso me fez querer ainda mais. A gente pulou férias, não teve férias de 2020 para 2021. A gente foi para a altitude oito semanas antes (das Olimpíadas de Tóquio). Normalmente a gente fica três semanas na altitude, nessa a gente ficou quatro semanas. Eu falava assim para o Fernando (Possenti, treinador da Ana Marcela na época): "Cara, não tem como, depois da série que eu fiz hoje, do que a gente treinou, ninguém ganha de mim". Então, eu estava muito convicta do que eu já tinha me preparado e para o que eu tinha que fazer. Cada prova a gente fazia uma estratégia diferente. Então ninguém sabia o que ia acontecer na próxima prova porque, toda vez que elas achavam que ia ser de um jeito, a gente mudava a estratégia da prova. Isso foi um fator muito importante. Na verdade a prova olímpica é o básico do básico, a gente vai nadar com elas e o fim a gente vai para frente e a gente vai ganhar. Não existe tentar alguma coisa no meio, porque a gente não vai correr risco. Olimpíada é aquilo. É milimetricamente calculado, você não arrisca na Olimpíada. Tenho certeza de que foi a prova perfeita da minha vida. Sua primeira experiência olímpica foi em Pequim 2008, quando você tinha 16 anos. Como foi chegar tão jovem aos Jogos Olímpicos? - 2008 pra mim foi a mais marcante. Cielo tinha sido medalha de ouro. Quando a gente chegou à vila, vi o Cesão passar. Eu não entendia nada, não sabia o quão grande eram os Jogos Olímpicos. Daí eu vi o Kobe Bryant, o Michael Phelps, e eu simplesmente parada olhando. Eu falava: estou no mesmo lugar que esses caras. Essa vivência de vila olímpica, e foi uma coisa que eu vivi 2008, 2016, eu me preparei muito pra isso, não tinha mais aquela falta de atenção, de ir para os lugares para poder ter uns brindes, trocar pin, e fazer um monte de coisa. Tudo isso você vai se preparando ao longo do tempo. Então quando eu cheguei para Tóquio, eu não tinha mais essa preocupação de vila. Ana Marcela relembra conselho de Fratus antes da prova olímpica - Se você quiser comparar, é fácil. Você ir num parque de diversão nos Estados Unidos e num parque de diversão no Brasil é totalmente diferente. As emoções são diferentes, o gigantismo. Na minha primeira Olimpíada, eu não tinha noção, não estava preparada para aquilo. Fui quinta colocada, disputei uma medalha por cinco, seis segundos. Então, eu estava preparada fisicamente, mas hoje eu poderia falar: “Putz, se eu não tivesse, talvez, ido tantas vezes trocar as coisas, pegar brinde, fazer isso ou aquilo, eu poderia até ter conseguido um resultado melhor”. Da primeira Olimpíada para a última, são mundos completamente diferentes. Pessoa mais experiente, vivida e muito mais pronta para aquilo que eu ia enfrentar Na verdade, de 2008 eu nem tenho dor, só agradecimento. Em 2012, fiquei fora. Em 2016, fui décima. Isso me gerou algo que eu falei: “Não quero mais isso para mim, não. Na próxima, ou ganha, ou ganha”. Eu tinha potencial: com 16 anos, fui quinta. Fui me dando conta disso ao longo dos anos. Então, totalmente, uma menina e uma mulher, com o mesmo caráter, o mesmo pensamento, a mesma pessoa, mas completamente diferente nesse quesito de profissionalismo. Ana Marcela Cunha maratona aquática Tóquio 2020 Reuters Foi uma pressão maior chegar a Paris 2024 como campeã olímpica? - Paris foram dois momentos. Para muitos, cheguei lá como campeã olímpica. Para mim, não, porque eu estava treinando antes com o Fernando (Possenti) e cheguei ao meu limite de desgaste emocional, social com a minha equipe. Cheguei ao ponto de pensar assim: “Nem vale a pena mais treinar para as Olimpíadas”. Tive overtraining, burnourt, e nada funcionava. Deu mais ou menos oito meses, veio o Mundial de Doha, seletiva, e eu estava lá, bem. Consegui uma medalha, e isso fez me sentir no esporte novamente. Chegar a Paris, para mim, foi uma vitória de poder estar ali novamente, disputando uma medalha. Foi um quarto lugar, não deixa de ser um bom resultado. Cheguei a Paris como uma vitoriosa por estar lá. Mas, para outros, cheguei como uma campeã olímpica que tinha a obrigação de repetir o resultado, de buscar a medalha. Não me importei muito com os outros. Pensei muito mais no que eu estava sentindo e no que eu queria para aquele momento, que ainda é minha maior motivação até hoje: estar bem, feliz na água, fazer o que amo, a minha paixão. Não tem preço. Em Paris, pude me reencontrar dentro de uma Olimpíada. Ana Marcela revela que chegou às Olimpíadas de Paris 2024 após burnout Qual foi a gota d’água para o fim da parceria com o Fernando Possenti? - Todo relacionamento tem começo, meio e fim. Espero que, com a minha esposa, possa ser eterno (risos). Brincadeiras à parte, eu e Fernando tivemos uma carreira muito vitoriosa, muito sucesso. Ganhamos o que tínhamos para ganhar. Infelizmente, logo após a medalha olímpica, houve uma frase que foi uma virada de chave, que não foi tão positiva para mim. Eu tinha acabado de sair ali da água, ainda não tinha nem dado ainda entrevista, não tinha falado com ninguém, só estava com o pessoal do Brasil. O Fernando vira e fala assim: “Agora falta (ganhar) os 10km do Mundial”, porque até hoje não ganhei medalha de ouro (nessa prova) no Campeonato Mundial. Isso me fez deixar de curtir a minha medalha de ouro olímpica, sabe? Pareceu que foi só uma conquista, passou e vamos para a próxima. E, na verdade, eu dei minha vida inteira por aquele momento e por aquela medalha. Isso foi um ponto que fez com que eu terminasse a Olimpíada e já voltasse a treinar 15 dias depois. Aí foi uma coisa vindo com a outra, foi quando eu tive o burnout. Eu não conseguia sair de casa, ver a luz do sol, não saía do meu quarto. Só falei assim: “Para mim, não faz sentido voltar para a piscina”. - Em 2022, tive uma etapa de Copa do Mundo, em Portugal. Quando acabou a prova, virei para ele e falei assim: “Não estou conseguindo levantar meu braço”. Aí, começaram os nossos problemas. Hoje, eu falo tranquila. Depois de um tempo, a gente digere, consegue pensar no lado positivo de tudo que aconteceu. Era uma dor de lesão, e vivi uns três meses tomando remédio para tirar dor. Era um remédio fortíssimo, que hoje nem é permitido. Não conseguia fazer nada sem tomar o remédio. O Fernando achava que eu estava fazendo um pouco de corpo mole. Comecei a entrar numa onda de ir para o treino chorando, sair chorando. As minhas colegas de equipe na época ficaram até meio assim. Nós subíamos para o refeitório, eu ia para uma mesa sozinha ou esperava todo mundo jantar para jantar sozinha. Comecei a me isolar do grupo, a sentir que não tinha ninguém comigo, que eu estava passando por tudo sozinha. Eu ficava no quarto sozinha. As coisas foram acontecendo. Ana Marcela relembra frase de Fernando Possenti após o ouro e fim da relação - Em 2022, eu operei. Depois, quando estávamos voltando aos treinos, tivemos um problema, porque ele achou que já tínhamos que ter voltado umas semanas antes. A equipe estava muito reunida e falou: “Temos que esperar 16 semanas para ela retornar”. Aí, como atleta, você escuta o técnico, escuta a sua equipe, você quer voltar a treinar porque o seu técnico está querendo, mas eu não podia pular o processo de ter a liberação do médico que tinha me operado. Aí, foi um pouco daquela coisa (de o Possenti falar) “a equipe não trabalhou direito”, e eu confiando na equipe, até porque eu não conseguia levantar o braço num dia, no outro eu estava operando, e no outro eu estava voltando de uma recuperação. Ana Marcela Cunha se emociona e comemora com treinador Fernando Possenti Satiro Sodré/SSPress/CBDA Houve briga entre vocês? - Fomos brigando ali, sem nos desrespeitarmos. E chegamos a uma altitude, na Turquia, que foi o limite do limite. Estava treinando muito bem, mas o Fernando sempre foi muito exigente. Perdi o prazer. Eu estava lá dando o meu melhor tiro de 5 mil (metros), e ele só falava que tinha sido bom. Sei que, para melhorar, precisamos realmente de alguém que nos mostre o que mudar, mas não chegar para mim e falar pouco, desprezar aquilo, para quem tinha vindo de uma cirurgia, passando pelo que eu tinha passado, e ele sabendo de tudo. Acho que chegamos ao limite da nossa relação ali. Foi quando virei para o Comitê (COB) e falei assim: “Estou parando de nadar, cheguei ao meu limite. Não consigo ver a piscina, eu não consigo mais. Não há uma relação minha com a piscina”. Não era nem a questão do Fernando. Eu não sentia mais prazer, entrava na piscina chorando, me perguntando para que estava fazendo aquilo. Foi aí que o Comitê falou: “O que você quer fazer? Quer ir ao Mundial de Fukuoka ou quer voltar para o Brasil?”. Valia vaga para as Olimpíadas. Resolvi ir. Fiquei em quarto ou quinto nos 10 (km), e fui terceira nos 5 (km). Nadei muito bem e já voltei me instalando na Itália. Fiquei alguns meses para testar a adaptação e me mudei no fim do ano. - Eu só tinha uma opção, que era sair do Brasil e ir à Itália para tentar me reerguer, voltar a ser Ana Marcela de sempre, rindo entre as provas, brincando, sorrindo. Não queria mais ser a Ana que muitos estavam vendo há muito tempo, sobrecarregada por tudo o que estava vivendo. Tenho muito a agradecer a ele (Fernando). Não tenho nem rancor, nem nada. Cada um seguiu o seu caminho. Estou muito feliz onde estou e sei que ele está muito feliz lá também, fazendo o que gosta. Infelizmente, hoje é isso. Quanto maior a distância que tivermos, melhor. Ana Marcela Cunha maratona aquática Tóquio 2020 Reuters Como foi ouvir aquela frase dele logo depois de você conquistar o ouro olímpico? - As coisas poderiam ter acontecido de outra forma. Aprendi a falar mais, porque sempre fui atleta de escutar e engolir. Mas cheguei a um momento em que tinha acabado de ganhar meu ouro olímpico. Como ele não me diz nem “ganhamos, conseguimos, realizamos”? Talvez ele achasse que ainda precisava me incentivar a seguir em frente, a brigar pela medalha no Mundial. Mas não era o momento certo. Era para dizer: “Show, curte, vive, aproveita”. Depois, chegaria e me diria que o foco passaria a ser os 10km do Mundial. Até hoje, não tenho esse ouro, e isso não muda nada para mim. Continuo a ser a maior medalhista do meu esporte em Mundiais. Isso não muda meu ouro olímpico, as minhas medalhas pan-americanas. Só trouxe trauma e a quebra de uma relação e de um "case" de sucesso. Hoje sou uma pessoa mais consciente, que fala mais, sabe dos seus limites, se conhece. Não sou só atleta. Sou também a pessoa que está por trás e consegui aprender isso no sufoco, precisando entender que não são só as medalhas que me definem e fazem as pessoas gostarem de mim. Elas gostam por causa de quem sou. Você sente que, nos últimos anos, o tratamento dos técnicos com os atletas tem melhorado? - No esporte, os técnicos ainda são as pessoas mais experientes, que viveram uma geração passada. Alguns caras de quem sou fã, como Bernardinho e Zé Roberto, vivenciaram, ainda como atletas, uma geração sem tato para as relações. Hoje, Bernardinho é um ícone para nós – conhecê-lo foi um presente – e vive com uma geração mais nova. É um cara que vejo como referência e que está se adaptando a tudo. Tenho 34 anos e treino com um menino de 16, de uma geração completamente diferente, que tem as coisas mais facilmente à disposição. Sinto que tivemos que lutar mais para aprender no passado, para conquistar resultados na vida. Mas os resultados dentro do esporte às vezes demoram dois, três ciclos olímpicos para aparecer. É necessário entender que as coisas não são tão rápidas. Mas, de uma forma geral, acho que a forma de falar dos técnicos está diferente também. Eles tentam ao máximo pensar duas vezes antes de falar. Tudo hoje é mais sensível e também mais adaptável. Dá para trazer para o seu mundo e mostrar aos jovens o que é a realidade de fato. A nova geração é até um pouco mais inteligente, sensível. Nós, mais velhos, ainda precisamos ouvir algo por duas, três vezes até compreender tudo. Os jovens são rápidos, imediatistas. A forma de falar realmente tem mudado, e todo mundo está se adaptando. Ana Marcela no Abre Aspas André Durão Você conseguiu ressignificar a experiência do ouro olímpico? - Quando completava um, dois, seis meses ou até um ano da conquista, o Fernando ficava incomodado e dizia: “Já foi. Passou”. Mas o feito fica para sempre, né? Vai ser sempre o dia da realização de um sonho para o qual vivi. Quando fizer 10 anos, vou fazer uma festa, com 50 mil pessoas em casa e comemorando a medalha do mesmo jeito. Hoje eu sou essa. Mas, junto com a minha psicóloga, tive momentos de falar: “Nem sei mais se queria ter ganhado a medalha”. Eu sentia um negócio estranho de olhar para a medalha e lembrar o que tinha acontecido. Pensava se não valia a pena ter conquistado o ouro de uma outra forma, com um outro técnico. Ficou uma coisa ruim. E se tivesse sido diferente? Outra pessoa teria a mesma reação do Fernando? E se ele não tivesse me falado nada? Num primeiro momento, tentei ignorar o que ele me falou, mas depois isso voltou. Eu sabia que não era para ter acontecido daquela forma. Mas hoje consigo comemorar em paz. Cinco anos após o ouro, Ana Marcela ressignifica a relação com a medalha A Juliana, sua esposa, é preparadora física. Como vocês começaram a trabalhar juntas, com ela na sua equipe? - Ela entrou para a minha equipe justamente quando descobri a lesão no ombro. Antes, ela sabia do que acontecia, porque eu contava em casa, mas ainda não trabalhava comigo. A Juliana pegou o bonde andando, mas, quando viu, estava sentando ao lado do motorista. Ela chegou para acalmar as coisas. Disse que eu precisava conversar com o Possenti e apoiaria qualquer decisão que eu tomasse. Por outro lado, também me ajudou no pós-cirúrgico, ajudou na minha recuperação. A situação do meu ombro não estava tão simples, e a recuperação teve que ser mais lenta, ficando a cargo da equipe multidisciplinar que me acompanha, incluindo a Juliana. Ela pôde acompanhar esse processo dentro e fora de casa, mas tentamos separar o profissional e o pessoal o máximo possível. É isso que sustenta a nossa relação. Se tiver alguma briga em casa, não levamos para o treino. No treino, se eu tiver alguma dor, algum problema, ela age de forma estritamente profissional. Dentro de todos os cenários, tentamos ter a melhor relação possível, conversar bastante. Com ela, senti uma confiança muito grande e consigo me comunicar muito melhor, sem vergonha de expressar meus sentimentos, inclusive no lado profissional. Ana Marcela Cunha e Juliana Melhem Arquivo Pessoal Ao longo da sua carreira, você sempre atuou na luta pelos direitos do público LGBTQIAPN+. Como foi a decisão de se engajar? - Foram dois momentos. O primeiro veio em 2013, quando fui conversar com a minha família, abrir meu coração, me assumir. Era algo que estava interferindo nos meus treinos, tendo que suportar algo só dentro de mim mesmo. Eu precisava ser quem eu sou. Minha mãe ficou um pouco mais sentida, sem nenhum tipo de preconceito, mas dizendo: “Poxa, eu não vou ser avó”. Falei para ela que nós podíamos adotar ou até gerar uma criança. Meu pai brincou: “Pelo menos, você nunca vai chegar grávida em casa”. Meus pais sempre foram muito tranquilos, nunca fizeram comentários ruins para mim. Então, me senti muito segura com elas. Mas, até 2018, 2019, eu não me assumia publicamente, não saía de mãos dadas, tinha medo de ocorrer algum tipo de violência. Há pessoas que não respeitam, mas também existem aquelas que nos veem e enxergam amor, entendem a nossa escolha. - Não existe preconceito com heterossexual, então, não há motivos para ter com qualquer outro tipo de relação. Cheguei a um momento em que eu precisava viver minha vida para não ficar só dentro de casa. Comecei a não me importar com a forma como me olhavam. Senti alívio com isso, não ligando para os outros. Depois do ouro olímpico, comecei a ter uma cara para o mundo, e as pessoas conheceram a minha história, viram que eu era lésbica. Na minha vida, se recebi 10 comentários preconceituosos nas redes sociais, foi muito. Tenho um público que sempre esteve comigo pela pessoa que eu sou. É preciso respeitar as escolhas de cada um. Depois da medalha, comecei a aparecer mais, parei de ter medo de sair na rua, falar sobre minha sexualidade, levantar a bandeira. Quando você faz isso, recebe mensagens de pessoas que se descobriram, ganharam coragem para se assumir, falar com a família. Elas só querem ser livres para amar. É um momento de reencontro quando você consegue se libertar e não se importar com os outros. Já tive todo tipo de cabelo, não sou muito afeminada, e está tudo bem. Só quero ser feliz e levantar a bandeira, porque acho importante para quem vem no futuro ou para outras pessoas mais velhas, que viveram uma época de preconceito ainda maior. Ana Marcela relembra a própria aceitação e defende direitos LGBTQIAPN+ Qual é a sua opinião sobre a participação de pessoas trans no esporte? - É um assunto ainda delicado. Existem os dois lados. Não podemos ser contra as escolhas, nem limitar o que cada um quer fazer. Quando você é uma pessoa trans e está no esporte há muito tempo, o seu corpo já se acostumou às regras e é completamente diferente. Sabemos o quão prejudicada a Tifanny foi pela transição que encarou, por exemplo. Imagina tomar um monte de hormônio para ser quem você sempre quis. Na nossa comunidade, temos sempre que respeitar, nos colocar do lugar do outro. Julgamos muito sem saber o dia de amanhã. Precisamos sempre apoiar as escolhas. Dentro da nossa comunidade, é sobre isso: acolhimento, respeito, ser quem você sente, sem limites. - Dentro do esporte, estamos envolvendo muito a ciência, com essa questão de marcadores, quantidade de testosterona. É um assunto ainda delicado, porque não temos muitos dados que mostrem uma diferença absurda de atletas trans. Há uma menina trans na natação universitária, por exemplo, mas ela não teve resultados absurdos, nenhum benefício. Ela só estava tentando fazer um esporte. Hoje, não é só uma luta dela como atleta, mas também como ser humano. O esporte pode salvar vidas, e você está limitando isso (ao impedir trans de competirem). Não temos como proibir a pessoa de ser e fazer o que ela ama. Ana Marcela fala sobre participação de mulheres trans no esporte Como foi a experiência de competir no Rio Sena, com toda aquela polêmica de água suja nas Olimpíadas de Paris? - Foi muito mais a insegurança de não saber se a água estava limpa, pensando até na questão da saúde do atleta. A diferença entre Paris e Rio foi que tivemos a despoluição da Baía de Guanabara, com a comprovação de que a água estava boa para a competição das Olimpíadas. Na França, estavam havia quatro anos sem conseguir mostrar que houve de fato a despoluição. Não tivemos evento-teste para Paris, porque a água estava imprópria. Ficava uma desconfiança. Cancelaram também a prova das Olimpíadas e remarcaram para o dia seguinte. Mas, se não pôde ter a prova hoje, como estará liberada amanhã? Quando caí no Sena, foi já no dia da competição. Eu não tinha sentido a corrente antes, por medo de ter alguma questão de saúde. Como atleta, você fica naquela apreensão de poder nadar, competir. Só que, na hora em que confirmaram a prova, não me preocupei com o pós. Depois, graças a Deus, não tive nada, mas conheço gente que foi ao hospital no dia seguinte. Sujeira do Rio Sena chamou atenção na Maratona Aquática Mehmet Murat Onel/Anadolu via Getty Images Como foi realizar seu sonho de cruzar o Canal da Mancha? - Não imaginei que o pós-Canal seria essa coisa toda, com tanta importância dada. Poucas pessoas conhecem esse desafio, a história do canal. Fiquei surpresa com a repercussão. Fico feliz por cumprir o desafio e mostrar que outros brasileiros também já tinham feito isso. São mais de 15 brasileiros que vão tentar cruzar o Canal nos próximos dois anos. Não estava preocupada com o recorde justamente por isso, por depender da força da maré. A mudança de corrente interfere muito na natação. O canal é o Everest das maratonas aquáticas. Só os predestinados conseguem concluir. Realizar meu sonho de infância num dia perfeito, com sol e pouco vento... Foram mais de 50 dias sem chover no verão de Londres. Foi uma janela perfeita. A água estava em 18, 19 graus, uma temperatura que me permite nadar num bom ritmo, sem sentir frio extremo. Era para ser assim. Foi o dia mais perfeito que eu poderia ter. Ana Marcela Cunha atravessa o Canal da Mancha Jonne Roriz/COB Passada a travessia do Canal da Mancha, você volta o foco para as Olimpíadas de Los Angeles? - Posso falar que sim. Estamos numa parte difícil dos treinos, porque fiz uma quilometragem muito alta para a travessia do Canal e estou tentando reencontrar o ritmo para nadar os 10km, voltando a uns treinos mais explosivos. Temos já os Jogos Sul-Americanos (em setembro, e Ana Marcela foi ouro), e as duas primeiras colocadas se classificarão para os Jogos Pan-Americanos. Los Angeles está ali já, não posso negar. Mas estou indo com uma coisinha de cada vez. Na primeira semana de novembro, teremos uma etapa de Copa do Mundo. Provavelmente vamos seguir direto, só parando de treinar em setembro do ano que vem, depois do Pan (em Lima). Em 2027, vêm os Jogos Pan-Americanos, Campeonato Mundial, que classifica as três primeiras para as Olimpíadas. Vamos tentar garantir a vaga olímpica o quanto antes, mas, mesmo se não for, teremos uma seletiva logo depois. Como você vê o momento da natação brasileira, tanto em águas abertas quanto na piscina? - A natação vive um momento diferente das águas abertas. Na natação, já temos algumas realidades, como (Guilherme) Caribé, Bia Dizotti, Maria Fernanda (Costa). São atletas estabelecidos nas seleções, com bons tempos, próximos do índice olímpico. Temos também o retorno da Etiene (Medeiros) e do João (Gomes Jr.). Ainda acredito muito na experiência do Nicholas (Santos), do Léo de Deus. É necessária a presença deles para o equilíbrio da nova geração. A natação é capaz de retornar e trazer novas medalhas para o Brasil. Temos atletas muito bons, qualidade para isso. Na maratona, no masculino, estamos ali sempre com uma alternância de nomes, com níveis parecidos. No feminino, falta ainda uma renovação. Tem a irmã da Vivi (Jungblut), a Cibelle, que ganhou os Jogos Pan-Americanos Júnior e está classificada para o Pan adulto. Isso é muito importante. Por um tempo, fomos eu e a Poliana, que se aposentou em 2017. Depois, veio a minha medalha em 2021, e a Vivi chegou junto também. Mas estamos aqui. Não tem muita troca. Para mim, não é bom falar que estou há 20 anos na seleção brasileira sem uma troca. Hoje, sou a única atleta ativa que participou das Olimpíadas de 2008. A renovação tinha que acontecer. Ela eleva o nível do país. A Confederação passou por muitas trocas de presidentes, com mentalidades e atitudes diferentes. Agora está conseguindo novamente se reerguer, com bons aliados e patrocinadores. Temos tudo para crescer. Futuro e aposentadoria: Ana Marcela fala sobre os próximos passos Você falou sobre a passagem de tempo na sua carreira. Como projeta o futuro? Já pensa na hora de parar? - Não penso na minha idade. Não fazia isso quando era mais nova. Para mim, idade foi um número que nunca considerei muito. Claro que, conforme ficamos mais velhos, o treino e a recuperação pesam mais. Eu não comecei com 20, 24 anos no alto rendimento. Muita gente fala: “Pô, Ana, você só tem 34 anos, dá para fazer outro ciclo olímpico e ir até Brisbane”. Eu até poderia ir, porque eu sempre digo que meu ponto de parar será quando eu não estiver mais feliz ou estiver me sacrificando para render. Tento explicar que já estou há 20 anos no alto rendimento, desde o Mundial de 2006, sempre me mantendo entre as 10, 15 melhores do mundo – com exceção daquele meu Mundial em 30º. É muito difícil ficar assim por tanto tempo. Como comecei muito nova e estou mais próxima da aposentadoria do que de participar das Olimpíadas de Brisbane. Uma coisinha de cada vez, querendo chegar a Los Angeles. Conte algo que ainda não sabemos sobre Ana Marcela. - Sou uma pessoa muito metódica, organizada. Sempre penso mais no próximo do que em mim mesma. Quero ajudar, dar oportunidade, fazer algo que eu não tive. Entro em várias vaquinhas por aí, saio ajudando, principalmente o pessoal do esporte. Não preciso falar muito, porque faço as coisas sem pensar no que as outras pessoas vão achar. Tenho um projeto em Pinheiral, por exemplo, e nem divulgo, porque não preciso levar mídia ou melhorar a minha imagem. Lá, temos aulas de hidroginástica para idosos, iniciação de natação. Minha vida é muito mais sobre propósito e o que eu posso fazer para ajudar o próximo. Gosto de ajudar sem receber nenhum tipo de reconhecimento ou bajulação pelo que estou fazendo. Tenho uma vida muito boa que o esporte me proporcionou. Tenho muito que nem preciso. O que vem a mais gosto de usar para ajudar alguém.
Ana Marcela revela trauma e ruptura com técnico do ouro olímpico: "Deixei de curtir a medalha"
Ana Marcela fala sobre ouro olímpico, burnout e recuperação emocional O mar sempre foi um norte para Ana Marcela Cunha. Ainda bebê, engatinhava para a água quando ia à praia com os pais. A curiosidade, a natureza, a paz, tudo isso atraiu a atenção. Foi um caminho natural para se tornar atleta de maratona aquática. Até chegar ao auge, com o ouro olímpico em Tóquio 2020, e precisar, depois, refazer rotas para voltar a ter prazer com o que a impulsionou. Ao "Abre Aspas", do ge, Ana Marcela revela bastidores do fim da parceria com o técnico Fernando Possenti logo após a maior conquista da carreira. Explica como a relação se esgotou na sequência daqueles Jogos Olímpicos em que foi ao topo do pódio e como recuperou a motivação para seguir no esporte. “Foi a prova perfeita”: Ana Marcela relembra ouro olímpico em Tóquio + Nalbert cita mágoa com Bernardinho por corte, critica CBV e indica nomes para treinar o Brasil + Edinanci Silva repassa trajetória de pioneirismo, fome e preconceito: "Sempre me senti diferente" + Hortência revela conselho de Pelé e lembra volta às quadras após ser mãe: "Hoje, talvez, seria cancelada" + Pioneiro do cancelamento, Fratus cita polêmicas, rivalidade com Cielo e admite: "Eu era uma granada" - Infelizmente, logo após a medalha olímpica, houve uma frase que foi uma virada de chave, que não foi tão positiva para mim. Eu tinha acabado de sair ali da água, ainda não tinha nem dado entrevista, não tinha falado com ninguém, só estava com o pessoal do Brasil. O Fernando vira e fala assim: “Agora falta (ganhar) os 10km do Mundial”, porque até hoje não ganhei medalha de ouro (nessa prova) no Campeonato Mundial. Isso me fez deixar de curtir a minha medalha de ouro olímpica, sabe? Pareceu que foi só uma conquista, passou e vamos para a próxima - conta ela. Ana Marcela no Abre Aspas André Durão Ana Marcela cita outro episódio que, segundo ela, contribuiu para o fim do trabalho com Possenti. - Em 2022, tive uma etapa de Copa do Mundo, em Portugal. Quando acabou a prova, virei para ele e falei assim: “Não estou conseguindo levantar meu braço”. Aí, começaram os nossos problemas. Hoje, eu falo tranquila. Depois de um tempo, a gente digere, consegue pensar no lado positivo de tudo o que aconteceu. Era uma dor de lesão, e vivi uns três meses tomando remédio para tirar dor. Era um remédio fortíssimo, que hoje nem é permitido. Não conseguia fazer nada sem tomar o remédio. O Fernando achava que eu estava fazendo um pouco de corpo mole - diz Ana Marcela. - Estou muito feliz onde estou e sei que ele está muito feliz lá também, fazendo o que gosta. Infelizmente, hoje é isso. Quanto maior a distância que tivermos, melhor. Ana Marcela no Abre Aspas André Durão + Larri Passos explica fama de pitbull do Guga, revela recusa a Djoko e diz que ATP protegia gringos: "Máfia" + Jackie Silva critica biquíni no pódio e relata brigas com Sandra: "Falei que não queria mais jogar com ela" + Tande chora ao lembrar infarto e se arrepende de treinos à la Romário: "Poderia ter sido maior do que fui" + Bruninho revela cobrança extrema de Bernardinho no início e exorciza Londres 2012: "Fundo do poço" Na entrevista de mais de duas horas, a baiana de Salvador diz que a diversão vem com as provas mais longas. A nadadora soma cinco de seus sete ouros em Mundiais na distância de 25km. Em Olimpíadas, a maratona aquática é disputada apenas em 10km. Para Ana Marcela, competições mais demoradas são um "sinal de amor ao esporte". Mesmo com a vida dedicada às águas abertas, ela conta que não fez muitos amigos entre as adversárias. - O europeu não quer perder para um brasileiro. Ele pode até perder para um americano, um chinês, um australiano, mas perder para um brasileiro, a galera meio que fica chateada, sabe? Lésbica assumida, Ana Marcela afirma que a medalha olímpica a fez aparecer mais para o público e, com isso, a atleta perdeu o medo de falar da sexualidade e de levantar bandeira. Hoje, ela conta com a esposa, Juliana, como a responsável por sua preparação física. Sobre a participação de atletas trans, Ana aponta um "assunto delicado", mas frisa que o esporte pode salvar vidas e que não se deve proibir qualquer um de fazer o que ama. Para a menina que se aventurava pelo mar e conquistou tudo o que podia como atleta, ainda há espaço para realizar sonhos. Foi assim com a travessia do Canal da Mancha, realizada em julho deste ano. A brasileira nadou 42,9km em 8h25m29s para estabelecer o recorde sul-americano entre homens e mulheres. Mais que o tempo, ela quis provar que podia nadar da Inglaterra até a França, no seu ritmo. A menos de dois anos para Los Angeles 2028, o desejo olímpico resiste. O mar segue sendo o norte para Ana Marcela Cunha. Ficha Técnica Nome: Ana Marcela de Jesus Soares da Cunha Nascimento: 23 de março de 1992, em Salvador Participações em Olimpíadas: Pequim 2008 (5º lugar), Rio 2016 (10º lugar), Tóquio 2020 (ouro), Paris 2024 (4º lugar) - a prova olímpica é disputada na distância de 10km Principais títulos: Campeã olímpica em Tóquio 2020, 7 ouros em Campeonatos Mundiais (nos 5km em Gwangju 2019 e Budapeste 2022 e nos 25km em Xangai 2011, Kazan 2015, Budapeste 2017, Gwangju 2019 e Budapeste 2022), 2 pratas em Mundiais (nos 10km em Barcelona 2013 e nos 5km por equipes em Kazan 2015), 7 bronzes em Mundiais (nos 5km em Barcelona 2013, Budapeste 2017, Fukuoka 2023 e Doha 2024 e nos 10km em Kazan 2015, Budapeste 2017 e Budapeste 2022), campeã dos Jogos Pan-Americanos de Lima 2019 (10km) e prata no Pan de Santiago 2023 + Vanderlei Cordeiro chora ao citar infância na lavoura: "Minha mochila era um pacote de arroz" + Virna rejeita rótulo de seleção "amarelona" e defende Mari: "Foi um crime o que fizeram com ela" + Giba conta bastidores de time "fora da curva" e admite entregada em 2010: "Não vamos ser hipócritas" + Varejão conta vida de glamour da NBA, conexão com LeBron e tática contra rivais: "Cabelo na cara" Abre Aspas: Ana Marcela Cunha ge: Qual foi o seu primeiro contato com o mar? O que você lembra? - O que mais me marcou na minha vida em termos de água, natação e decidir querer nadar no mar foi em 2000. Eu tinha oito anos quando fui nadar no mar numa competição. Antes disso, só tenho muitas lembranças de férias em família, na ilha de Itaparica, em Salvador, de estar no mar, na água, brincando. É, realmente, um pouco da história mais de ver as fotos e as histórias contadas pelos meus pais. Muitos dizem que, até antes de nadar, eu já estava (no mar). Meus pais iam para a praia. Na barriga da minha mãe, toda vez que minha mãe já deitava no sol, eu começava a tremer lá dentro, já queria, ficava agoniada. E assim que eu nasci. Com mais ou menos oito, nove meses, meus pais foram para férias. Pelas fotos, eles meio que fizeram um buraco, assim, na areia, colocaram uma piscininha de plástico, um pouco de água e, como eu já gostava de água e tal, me deixaram ali. O que contam é que eu não ficava, saía engatinhando direto para o mar. Então, acho que a ligação já foi desde antes de nascer, mas sempre teve um pezinho com algo do mar, com a natação, com a água. Ana Marcela no Abre Aspas André Durão Você teve medo do mar? - Na verdade, eu sempre tive muita curiosidade do mar. Pelo contrário, eu não tinha essa noção de que tem tubarão, água-viva, animais que são um pouco maiores, como a arraia, que sempre é um medo, né? Quando criança, não tinha esse medo. Eu sempre tive vontade de estar no meio dos peixes, na natureza. Nunca fui mais da parte terrestre, de fazer muitas trilhas ou coisas assim no passado, mas sempre tive esse contato muito forte com o mar. Acho que eu tinha muita curiosidade de poder voltar, ver o peixe, estar com os animais. E isso foi o que mais, no começo, me chamou a atenção do esporte e depois eu entendi que se chamava maratona aquática. Na maratona aquática, já houve algum momento em que você se sentiu paralisada no mar? - Já me perdi várias vezes nos treinos, por exemplo, antes das provas. Como nadar ali no Porto da Barra, em Salvador, onde você se perde no sentido das coisas especiais, da magnitude, que é de poder estar ali observando os corais. Nadei em Seychelles, que é uma ilha na África. Para mim, foi uma das coisas mais lindas que eu já pude ver, o mar cristalino. Foi uma das vezes em que eu vi um tubarão, mas pequenininho. Acho que é muito mais nesse quesito de observar, de ficar mais deslumbrada com aquilo e poder parar para imaginar quanto tempo não se levou para isso estar aqui, para ter sido criado pela natureza, como é o ecossistema marinho. - Tive medo uma vez na vida, posso falar, na verdade. Eu estava em Noronha, de férias. Não me recordo o nome da praia agora. Eram, mais ou menos, umas cinco, seis horas da tarde. Na hora em que a gente entrou no mar, a primeira onda que a gente pulou, para furar a onda, passou um tubarão. Foi a vez em que eu não parei para pensar, não fiquei paralisada. Da mesma forma que eu entrei, eu só voltei, peguei a outra onda, saí correndo e falei: “Mano, tubarão, tubarão, tubarão!”, E o pessoal: “Não, fica tranquila que é comum esse horário, eles voltam para poder dormir”. Eu falei: “Ah, dormir, dormir...vou eu para casa!” Acho que foi a única vez em que eu tive um encontro assim. Ana Marcela cruza com peixe durante a vitória em Tóquio Jonne Roriz/COB O quanto o mar revigora? - De 80% a 90%, os nossos treinos são feitos na piscina, até por causa de marcadores, de ter um pouco mais de controle sobre o que a gente está fazendo, sobre a metragem, sobre o que a gente tem que nadar de ritmo. A piscina é aquela coisa meio chata, monótona, de você estar sempre indo e voltando com um monte de ladrilho, numa linha. O comum entre o ambiente da natação (na piscina) e o da maratona é o silêncio. Porque, quando você está nadando, é só você, você mesmo, e o que vem na sua cabeça, os seus pensamentos. Na piscina, principalmente, é mais silêncio ainda dentro d'água. Fora, você escuta um pouco mais do técnico, você tem os seus amigos ali que estão conversando. O mar, por exemplo, você ainda tem um pouco do silêncio, que às vezes vem junto com o barulho da onda, a viagem ali de você ter visto um animal, um peixe ou alguma coisa. Você tem mais atenção no mar, tem alguns pontos para onde você está nadando, aonde você está indo. No mar, você sempre vai se sentir um pouco mais livre. Sou muito conectada com o mar, acho que eu tenho ali uma conexão muito forte, seja com o Iemanjá, seja com os meus orixás, eu acredito muito. O que passa na sua cabeça quando está nadando trajetos longos no mar? - A maior diferença do treino é que a gente está ali muito pressionado a nadar no ritmo, a ter um treinamento muito específico, a ter objetivos a cada tiro, a cada série. No treino, a cabeça está focada justamente na alta performance o tempo inteiro, no melhor que a gente pode colher, no melhor que a gente pode fazer pensando na técnica. Existem dois tipos de pensamentos dentro da competição. O primeiro, quando a gente fala de 5km, 10km, porque são provas onde tem muita estratégia também das adversárias, em que você tem um pelotão muito forte, ritmo muito forte. E existe também o pensamento de quando você nada as provas um pouco mais longas, como os 25km, os 36km, os 40km agora do Canal da Mancha, que são pensamentos um pouco mais “quero nadar, quero completar”. É uma outra vibe até dos seus próprios adversários. Não é só a competição. Existe não só um pouco de companheirismo, porque sozinho você não consegue nadar 25km sozinho. É impossível. Você vai chegar uma hora em que você não consegue mais. Você vai cansar no ritmo de competição, o que eu quero dizer. Então, na verdade, você termina nadando junto, sempre com no mínimo cinco, seis atletas, até uma hora que um começa a cansar e vai perdendo o pelotão. Pódio dos 25km do Mundial de águas abertas nos 25km (Ana Marcela no centro) Maddie Meyer /Getty Images Você tem sete ouros em Mundiais, sendo cinco nas provas de 25km. De onde vem essa resistência? - Quando a gente fala dessas provas um pouco mais longas, a gente já não fala só de competição, a gente fala muito de amor ao esporte. Sempre nadei os 10km e os 5km, aí teve o Mundial em 2010, que eu vi a prova dos 25km, quando na verdade eu não sabia nem que existia a prova dos 25km no Mundial. Eu vi as meninas nadando e falei: “Cara, deve ser difícil, mas, pô, não é impossível, eu estou vendo as meninas fazendo. No próximo Mundial, eu quero poder nadar essa prova”. Que foi justamente o Mundial de 2011. Fiquei fora da classificação olímpica (para Londres 2012) e, cinco dias depois, eu estava nadando pela minha primeira vez a prova dos 25km, e saí com o ouro. Todo mundo falou: “Mas essa é uma prova que é totalmente mental”. E eu falei: “É, mas eu acho que nesses meus primeiros 25km, eu queria provar não só para mim, mas para outras pessoas que minha vaga infelizmente não veio, mas que eu estava pronta”. - A gente largou às seis horas da manhã, estava muito quente, a água já estava batendo 28 graus, eu nunca fui assim de nadar na água quente tão bem. Acho que, nesse momento, vi o quanto a minha cabeça era forte, porque um dia eu estava fora da Olimpíada, três dias depois, eu tinha sido sexta colocada nos 5km, e aí eu falei, "Cara, eu estou pronta". Nadei os 10km, melhorei nos 5km e eu comecei a acreditar. Fui, larguei, fui indo, sem tentar perder o pelotão para não nadar sozinha, quando virou a última boia, 400 metros para o final, era eu e mais uma só, eu falei, "Olha, é ouro ou prata, vamos tentar", e a gente foi. No finzinho, quando a gente entrou mais no funil, faltando os 50 metros, eu já estava um corpo à frente. Essa emoção foi o que me fez falar assim "Eu acho que eu sou boa, nessa coisa dos 25km, nessas provas mais longas". Aí realmente eu comecei a ver que, quando eu nadava nas provas mais longas era quando eu mais me divertia e que as provas de 5km e 10km não me traziam uma diversão, me traziam obrigação. Como é a preparação para lidar com a ansiedade e manter o foco na prova? - Ao longo dos meus anos na natação, eu sempre consegui me preparar mentalmente para aquele momento da competição. Já tive provas em que, faltando uns 40 minutos, 30 minutos antes da prova, eu deito. Às vezes eu chego a cochilar, de tão tranquila que eu consigo estar. Acho que eu não deixo o nervosismo vir, a ansiedade vir. Eu brinco: o brasileiro a gente tem um coração quente, o sangue ferve e, nessas horas, acho que eu tenho um pé na Europa, né? Porque eu sou assim, uma pessoa muito tranquila. Você olha para mim, por dentro até pode estar, mas quem olha para mim, vai falar assim "Cara, ela está muito convicta" . Isso quebra no atleta, no alto rendimento, quando você olha para o seu maior adversário e ele está com um semblante muito tranquilo, muito agressivo às vezes também, ao mesmo tempo, isso também gera medo, você vai quebrar justamente o seu adversário. Eu me preparo muito para isso e tento ao máximo não me importar com o que os outros estão fazendo, com o que os outros estão pensando, as atitudes. Eu me concentro muito também na questão da minha estratégia. Tento ao máximo participar, mas não ser a protagonista, sempre estar ali, tranquila, examinando o espaço e na hora que eu preciso ir para frente. Ana Marcela no Abre Aspas André Durão No polo aquático, jogadores se puxam debaixo d'água, se tocam, se provocam. Acontece isso na maratona aquática? - Na maratona, você está nadando um do lado do outro. Quanto mais alto o cotovelo, mais risco é de você terminar golpeando a sua adversária. E isso acontece, porque a maioria das atletas tem essa técnica do cotovelo mais alto. Por sorte, o meu nado me favorece na maratona, pelo meu braço vir um pouco mais na minha direção, eu consigo evitar o cotovelo da minha adversária. Não é um ponto proposital, que a pessoa vai e levanta o cotovelo para bater na cara. É porque faz parte da técnica do nado. Então, acontece muito o toque do cotovelo. E aí, a gente pode ter várias partes do corpo. O normal, ou é na direção do rosto, porque você está ali respirando bem no momento da braçada, ou nessa direção mais aqui da pelve, essa parte mais aqui, que é onde, tipo, às vezes está puxando também entre um e outro e termina dando um encontrão. Então, existe muito. A gente não pode nadar com nenhum tipo de acessório, brinco, piercing. Nada disso. A gente tem que tirar tudo. A pior parte que a gente tem é o contorno de boia. Quando a gente vira a boia, ao menos o começo, que, às vezes, tem 50 atletas para virar uma boia, é muito complicado e, realmente, tem muita porrada. É porrada. Vai pé, vai cotovelo, vai de cima, vem de baixo. Você não sabe de onde vem. Mas já teve alguma situação em que foi sentiu sendo provocada? - Tive duas. As duas bem nessa questão de chegada. E as duas muito parecidas. Eu estava um pouco mais à frente. Vieram duas italianas, e uma delas puxou meu pé. A outra terminou chegando junto comigo e batendo na frente. Só que na época não existia que, nem agora, tanta câmera. O juiz, como tinham quatro, cinco atletas, não conseguiu perceber o que tinha acontecido. Meio que ficou por aquilo, só que eu saí de primeiro para terceiro. E aquilo, no fim de prova, faltando 200 metros para a chegada, atrapalha. Foram as duas vezes que eu tive muito bem parecidas, que foi justamente um puxão, e a gente sabe quando é puxão e quando acontece da mão, no caso, tocar o pé. E, pô, toca o pé, tudo bem, você fica ali. É chato também, a gente tem isso. Eu sei que eu cheguei em terceiro, mas quem ganhou sabe que fez de errado. Então, para mim, isso é a maior lição que eu levo daquele momento ali, daquela prova. Como é o contato com as suas adversárias? - O europeu não quer perder para um brasileiro. Ele pode até perder para um americano, um chinês, um australiano, mas perder para um brasileiro, a galera meio que fica, sabe? Então, acho que eu terminei não criando tantos bons amigos. Não tenho problemas, não tenho, sei lá, tipo de ignorar as pessoas ou de não falar com elas, mas não tenho melhores amigos dentro do meu esporte. Não tenho, é óbvio que eu já tive oportunidade de treinar junto com outras atletas, morei dois anos na Itália, treinei com o pessoal da Itália. Óbvio, existe muito respeito, muita competitividade. Acho que termina que a galera tem, sei lá, uma raiva ou alguma coisa de quando a gente é bom, sabe? Dar um parabéns, acho que isso é óbvio dentro do esporte, é o mínimo que você tem que fazer. Ana Marcela no Abre Aspas André Durão Vamos ao seu ouro olímpico em Tóquio. Você sentiu que era o seu dia? - Eu estava muito bem preparada já, em 2020, eu estava simplesmente voando, eu já falava "Cara, vai ser difícil alguém ganhar, vai ser difícil alguém ganhar". Infelizmente, veio a pandemia. Eu passei por muita coisa, esse momento, tipo, não é agora, não é para ser agora. Acho que isso me fez querer ainda mais. A gente pulou férias, não teve férias de 2020 para 2021. A gente foi para a altitude oito semanas antes (das Olimpíadas de Tóquio). Normalmente a gente fica três semanas na altitude, nessa a gente ficou quatro semanas. Eu falava assim para o Fernando (Possenti, treinador da Ana Marcela na época): "Cara, não tem como, depois da série que eu fiz hoje, do que a gente treinou, ninguém ganha de mim". Então, eu estava muito convicta do que eu já tinha me preparado e para o que eu tinha que fazer. Cada prova a gente fazia uma estratégia diferente. Então ninguém sabia o que ia acontecer na próxima prova porque, toda vez que elas achavam que ia ser de um jeito, a gente mudava a estratégia da prova. Isso foi um fator muito importante. Na verdade a prova olímpica é o básico do básico, a gente vai nadar com elas e o fim a gente vai para frente e a gente vai ganhar. Não existe tentar alguma coisa no meio, porque a gente não vai correr risco. Olimpíada é aquilo. É milimetricamente calculado, você não arrisca na Olimpíada. Tenho certeza de que foi a prova perfeita da minha vida. Sua primeira experiência olímpica foi em Pequim 2008, quando você tinha 16 anos. Como foi chegar tão jovem aos Jogos Olímpicos? - 2008 pra mim foi a mais marcante. Cielo tinha sido medalha de ouro. Quando a gente chegou à vila, vi o Cesão passar. Eu não entendia nada, não sabia o quão grande eram os Jogos Olímpicos. Daí eu vi o Kobe Bryant, o Michael Phelps, e eu simplesmente parada olhando. Eu falava: estou no mesmo lugar que esses caras. Essa vivência de vila olímpica, e foi uma coisa que eu vivi 2008, 2016, eu me preparei muito pra isso, não tinha mais aquela falta de atenção, de ir para os lugares para poder ter uns brindes, trocar pin, e fazer um monte de coisa. Tudo isso você vai se preparando ao longo do tempo. Então quando eu cheguei para Tóquio, eu não tinha mais essa preocupação de vila. Ana Marcela relembra conselho de Fratus antes da prova olímpica - Se você quiser comparar, é fácil. Você ir num parque de diversão nos Estados Unidos e num parque de diversão no Brasil é totalmente diferente. As emoções são diferentes, o gigantismo. Na minha primeira Olimpíada, eu não tinha noção, não estava preparada para aquilo. Fui quinta colocada, disputei uma medalha por cinco, seis segundos. Então, eu estava preparada fisicamente, mas hoje eu poderia falar: “Putz, se eu não tivesse, talvez, ido tantas vezes trocar as coisas, pegar brinde, fazer isso ou aquilo, eu poderia até ter conseguido um resultado melhor”. Da primeira Olimpíada para a última, são mundos completamente diferentes. Pessoa mais experiente, vivida e muito mais pronta para aquilo que eu ia enfrentar Na verdade, de 2008 eu nem tenho dor, só agradecimento. Em 2012, fiquei fora. Em 2016, fui décima. Isso me gerou algo que eu falei: “Não quero mais isso para mim, não. Na próxima, ou ganha, ou ganha”. Eu tinha potencial: com 16 anos, fui quinta. Fui me dando conta disso ao longo dos anos. Então, totalmente, uma menina e uma mulher, com o mesmo caráter, o mesmo pensamento, a mesma pessoa, mas completamente diferente nesse quesito de profissionalismo. Ana Marcela Cunha maratona aquática Tóquio 2020 Reuters Foi uma pressão maior chegar a Paris 2024 como campeã olímpica? - Paris foram dois momentos. Para muitos, cheguei lá como campeã olímpica. Para mim, não, porque eu estava treinando antes com o Fernando (Possenti) e cheguei ao meu limite de desgaste emocional, social com a minha equipe. Cheguei ao ponto de pensar assim: “Nem vale a pena mais treinar para as Olimpíadas”. Tive overtraining, burnourt, e nada funcionava. Deu mais ou menos oito meses, veio o Mundial de Doha, seletiva, e eu estava lá, bem. Consegui uma medalha, e isso fez me sentir no esporte novamente. Chegar a Paris, para mim, foi uma vitória de poder estar ali novamente, disputando uma medalha. Foi um quarto lugar, não deixa de ser um bom resultado. Cheguei a Paris como uma vitoriosa por estar lá. Mas, para outros, cheguei como uma campeã olímpica que tinha a obrigação de repetir o resultado, de buscar a medalha. Não me importei muito com os outros. Pensei muito mais no que eu estava sentindo e no que eu queria para aquele momento, que ainda é minha maior motivação até hoje: estar bem, feliz na água, fazer o que amo, a minha paixão. Não tem preço. Em Paris, pude me reencontrar dentro de uma Olimpíada. Ana Marcela revela que chegou às Olimpíadas de Paris 2024 após burnout Qual foi a gota d’água para o fim da parceria com o Fernando Possenti? - Todo relacionamento tem começo, meio e fim. Espero que, com a minha esposa, possa ser eterno (risos). Brincadeiras à parte, eu e Fernando tivemos uma carreira muito vitoriosa, muito sucesso. Ganhamos o que tínhamos para ganhar. Infelizmente, logo após a medalha olímpica, houve uma frase que foi uma virada de chave, que não foi tão positiva para mim. Eu tinha acabado de sair ali da água, ainda não tinha nem dado ainda entrevista, não tinha falado com ninguém, só estava com o pessoal do Brasil. O Fernando vira e fala assim: “Agora falta (ganhar) os 10km do Mundial”, porque até hoje não ganhei medalha de ouro (nessa prova) no Campeonato Mundial. Isso me fez deixar de curtir a minha medalha de ouro olímpica, sabe? Pareceu que foi só uma conquista, passou e vamos para a próxima. E, na verdade, eu dei minha vida inteira por aquele momento e por aquela medalha. Isso foi um ponto que fez com que eu terminasse a Olimpíada e já voltasse a treinar 15 dias depois. Aí foi uma coisa vindo com a outra, foi quando eu tive o burnout. Eu não conseguia sair de casa, ver a luz do sol, não saía do meu quarto. Só falei assim: “Para mim, não faz sentido voltar para a piscina”. - Em 2022, tive uma etapa de Copa do Mundo, em Portugal. Quando acabou a prova, virei para ele e falei assim: “Não estou conseguindo levantar meu braço”. Aí, começaram os nossos problemas. Hoje, eu falo tranquila. Depois de um tempo, a gente digere, consegue pensar no lado positivo de tudo que aconteceu. Era uma dor de lesão, e vivi uns três meses tomando remédio para tirar dor. Era um remédio fortíssimo, que hoje nem é permitido. Não conseguia fazer nada sem tomar o remédio. O Fernando achava que eu estava fazendo um pouco de corpo mole. Comecei a entrar numa onda de ir para o treino chorando, sair chorando. As minhas colegas de equipe na época ficaram até meio assim. Nós subíamos para o refeitório, eu ia para uma mesa sozinha ou esperava todo mundo jantar para jantar sozinha. Comecei a me isolar do grupo, a sentir que não tinha ninguém comigo, que eu estava passando por tudo sozinha. Eu ficava no quarto sozinha. As coisas foram acontecendo. Ana Marcela relembra frase de Fernando Possenti após o ouro e fim da relação - Em 2022, eu operei. Depois, quando estávamos voltando aos treinos, tivemos um problema, porque ele achou que já tínhamos que ter voltado umas semanas antes. A equipe estava muito reunida e falou: “Temos que esperar 16 semanas para ela retornar”. Aí, como atleta, você escuta o técnico, escuta a sua equipe, você quer voltar a treinar porque o seu técnico está querendo, mas eu não podia pular o processo de ter a liberação do médico que tinha me operado. Aí, foi um pouco daquela coisa (de o Possenti falar) “a equipe não trabalhou direito”, e eu confiando na equipe, até porque eu não conseguia levantar o braço num dia, no outro eu estava operando, e no outro eu estava voltando de uma recuperação. Ana Marcela Cunha se emociona e comemora com treinador Fernando Possenti Satiro Sodré/SSPress/CBDA Houve briga entre vocês? - Fomos brigando ali, sem nos desrespeitarmos. E chegamos a uma altitude, na Turquia, que foi o limite do limite. Estava treinando muito bem, mas o Fernando sempre foi muito exigente. Perdi o prazer. Eu estava lá dando o meu melhor tiro de 5 mil (metros), e ele só falava que tinha sido bom. Sei que, para melhorar, precisamos realmente de alguém que nos mostre o que mudar, mas não chegar para mim e falar pouco, desprezar aquilo, para quem tinha vindo de uma cirurgia, passando pelo que eu tinha passado, e ele sabendo de tudo. Acho que chegamos ao limite da nossa relação ali. Foi quando virei para o Comitê (COB) e falei assim: “Estou parando de nadar, cheguei ao meu limite. Não consigo ver a piscina, eu não consigo mais. Não há uma relação minha com a piscina”. Não era nem a questão do Fernando. Eu não sentia mais prazer, entrava na piscina chorando, me perguntando para que estava fazendo aquilo. Foi aí que o Comitê falou: “O que você quer fazer? Quer ir ao Mundial de Fukuoka ou quer voltar para o Brasil?”. Valia vaga para as Olimpíadas. Resolvi ir. Fiquei em quarto ou quinto nos 10 (km), e fui terceira nos 5 (km). Nadei muito bem e já voltei me instalando na Itália. Fiquei alguns meses para testar a adaptação e me mudei no fim do ano. - Eu só tinha uma opção, que era sair do Brasil e ir à Itália para tentar me reerguer, voltar a ser Ana Marcela de sempre, rindo entre as provas, brincando, sorrindo. Não queria mais ser a Ana que muitos estavam vendo há muito tempo, sobrecarregada por tudo o que estava vivendo. Tenho muito a agradecer a ele (Fernando). Não tenho nem rancor, nem nada. Cada um seguiu o seu caminho. Estou muito feliz onde estou e sei que ele está muito feliz lá também, fazendo o que gosta. Infelizmente, hoje é isso. Quanto maior a distância que tivermos, melhor. Ana Marcela Cunha maratona aquática Tóquio 2020 Reuters Como foi ouvir aquela frase dele logo depois de você conquistar o ouro olímpico? - As coisas poderiam ter acontecido de outra forma. Aprendi a falar mais, porque sempre fui atleta de escutar e engolir. Mas cheguei a um momento em que tinha acabado de ganhar meu ouro olímpico. Como ele não me diz nem “ganhamos, conseguimos, realizamos”? Talvez ele achasse que ainda precisava me incentivar a seguir em frente, a brigar pela medalha no Mundial. Mas não era o momento certo. Era para dizer: “Show, curte, vive, aproveita”. Depois, chegaria e me diria que o foco passaria a ser os 10km do Mundial. Até hoje, não tenho esse ouro, e isso não muda nada para mim. Continuo a ser a maior medalhista do meu esporte em Mundiais. Isso não muda meu ouro olímpico, as minhas medalhas pan-americanas. Só trouxe trauma e a quebra de uma relação e de um "case" de sucesso. Hoje sou uma pessoa mais consciente, que fala mais, sabe dos seus limites, se conhece. Não sou só atleta. Sou também a pessoa que está por trás e consegui aprender isso no sufoco, precisando entender que não são só as medalhas que me definem e fazem as pessoas gostarem de mim. Elas gostam por causa de quem sou. Você sente que, nos últimos anos, o tratamento dos técnicos com os atletas tem melhorado? - No esporte, os técnicos ainda são as pessoas mais experientes, que viveram uma geração passada. Alguns caras de quem sou fã, como Bernardinho e Zé Roberto, vivenciaram, ainda como atletas, uma geração sem tato para as relações. Hoje, Bernardinho é um ícone para nós – conhecê-lo foi um presente – e vive com uma geração mais nova. É um cara que vejo como referência e que está se adaptando a tudo. Tenho 34 anos e treino com um menino de 16, de uma geração completamente diferente, que tem as coisas mais facilmente à disposição. Sinto que tivemos que lutar mais para aprender no passado, para conquistar resultados na vida. Mas os resultados dentro do esporte às vezes demoram dois, três ciclos olímpicos para aparecer. É necessário entender que as coisas não são tão rápidas. Mas, de uma forma geral, acho que a forma de falar dos técnicos está diferente também. Eles tentam ao máximo pensar duas vezes antes de falar. Tudo hoje é mais sensível e também mais adaptável. Dá para trazer para o seu mundo e mostrar aos jovens o que é a realidade de fato. A nova geração é até um pouco mais inteligente, sensível. Nós, mais velhos, ainda precisamos ouvir algo por duas, três vezes até compreender tudo. Os jovens são rápidos, imediatistas. A forma de falar realmente tem mudado, e todo mundo está se adaptando. Ana Marcela no Abre Aspas André Durão Você conseguiu ressignificar a experiência do ouro olímpico? - Quando completava um, dois, seis meses ou até um ano da conquista, o Fernando ficava incomodado e dizia: “Já foi. Passou”. Mas o feito fica para sempre, né? Vai ser sempre o dia da realização de um sonho para o qual vivi. Quando fizer 10 anos, vou fazer uma festa, com 50 mil pessoas em casa e comemorando a medalha do mesmo jeito. Hoje eu sou essa. Mas, junto com a minha psicóloga, tive momentos de falar: “Nem sei mais se queria ter ganhado a medalha”. Eu sentia um negócio estranho de olhar para a medalha e lembrar o que tinha acontecido. Pensava se não valia a pena ter conquistado o ouro de uma outra forma, com um outro técnico. Ficou uma coisa ruim. E se tivesse sido diferente? Outra pessoa teria a mesma reação do Fernando? E se ele não tivesse me falado nada? Num primeiro momento, tentei ignorar o que ele me falou, mas depois isso voltou. Eu sabia que não era para ter acontecido daquela forma. Mas hoje consigo comemorar em paz. Cinco anos após o ouro, Ana Marcela ressignifica a relação com a medalha A Juliana, sua esposa, é preparadora física. Como vocês começaram a trabalhar juntas, com ela na sua equipe? - Ela entrou para a minha equipe justamente quando descobri a lesão no ombro. Antes, ela sabia do que acontecia, porque eu contava em casa, mas ainda não trabalhava comigo. A Juliana pegou o bonde andando, mas, quando viu, estava sentando ao lado do motorista. Ela chegou para acalmar as coisas. Disse que eu precisava conversar com o Possenti e apoiaria qualquer decisão que eu tomasse. Por outro lado, também me ajudou no pós-cirúrgico, ajudou na minha recuperação. A situação do meu ombro não estava tão simples, e a recuperação teve que ser mais lenta, ficando a cargo da equipe multidisciplinar que me acompanha, incluindo a Juliana. Ela pôde acompanhar esse processo dentro e fora de casa, mas tentamos separar o profissional e o pessoal o máximo possível. É isso que sustenta a nossa relação. Se tiver alguma briga em casa, não levamos para o treino. No treino, se eu tiver alguma dor, algum problema, ela age de forma estritamente profissional. Dentro de todos os cenários, tentamos ter a melhor relação possível, conversar bastante. Com ela, senti uma confiança muito grande e consigo me comunicar muito melhor, sem vergonha de expressar meus sentimentos, inclusive no lado profissional. Ana Marcela Cunha e Juliana Melhem Arquivo Pessoal Ao longo da sua carreira, você sempre atuou na luta pelos direitos do público LGBTQIAPN+. Como foi a decisão de se engajar? - Foram dois momentos. O primeiro veio em 2013, quando fui conversar com a minha família, abrir meu coração, me assumir. Era algo que estava interferindo nos meus treinos, tendo que suportar algo só dentro de mim mesmo. Eu precisava ser quem eu sou. Minha mãe ficou um pouco mais sentida, sem nenhum tipo de preconceito, mas dizendo: “Poxa, eu não vou ser avó”. Falei para ela que nós podíamos adotar ou até gerar uma criança. Meu pai brincou: “Pelo menos, você nunca vai chegar grávida em casa”. Meus pais sempre foram muito tranquilos, nunca fizeram comentários ruins para mim. Então, me senti muito segura com elas. Mas, até 2018, 2019, eu não me assumia publicamente, não saía de mãos dadas, tinha medo de ocorrer algum tipo de violência. Há pessoas que não respeitam, mas também existem aquelas que nos veem e enxergam amor, entendem a nossa escolha. - Não existe preconceito com heterossexual, então, não há motivos para ter com qualquer outro tipo de relação. Cheguei a um momento em que eu precisava viver minha vida para não ficar só dentro de casa. Comecei a não me importar com a forma como me olhavam. Senti alívio com isso, não ligando para os outros. Depois do ouro olímpico, comecei a ter uma cara para o mundo, e as pessoas conheceram a minha história, viram que eu era lésbica. Na minha vida, se recebi 10 comentários preconceituosos nas redes sociais, foi muito. Tenho um público que sempre esteve comigo pela pessoa que eu sou. É preciso respeitar as escolhas de cada um. Depois da medalha, comecei a aparecer mais, parei de ter medo de sair na rua, falar sobre minha sexualidade, levantar a bandeira. Quando você faz isso, recebe mensagens de pessoas que se descobriram, ganharam coragem para se assumir, falar com a família. Elas só querem ser livres para amar. É um momento de reencontro quando você consegue se libertar e não se importar com os outros. Já tive todo tipo de cabelo, não sou muito afeminada, e está tudo bem. Só quero ser feliz e levantar a bandeira, porque acho importante para quem vem no futuro ou para outras pessoas mais velhas, que viveram uma época de preconceito ainda maior. Ana Marcela relembra a própria aceitação e defende direitos LGBTQIAPN+ Qual é a sua opinião sobre a participação de pessoas trans no esporte? - É um assunto ainda delicado. Existem os dois lados. Não podemos ser contra as escolhas, nem limitar o que cada um quer fazer. Quando você é uma pessoa trans e está no esporte há muito tempo, o seu corpo já se acostumou às regras e é completamente diferente. Sabemos o quão prejudicada a Tifanny foi pela transição que encarou, por exemplo. Imagina tomar um monte de hormônio para ser quem você sempre quis. Na nossa comunidade, temos sempre que respeitar, nos colocar do lugar do outro. Julgamos muito sem saber o dia de amanhã. Precisamos sempre apoiar as escolhas. Dentro da nossa comunidade, é sobre isso: acolhimento, respeito, ser quem você sente, sem limites. - Dentro do esporte, estamos envolvendo muito a ciência, com essa questão de marcadores, quantidade de testosterona. É um assunto ainda delicado, porque não temos muitos dados que mostrem uma diferença absurda de atletas trans. Há uma menina trans na natação universitária, por exemplo, mas ela não teve resultados absurdos, nenhum benefício. Ela só estava tentando fazer um esporte. Hoje, não é só uma luta dela como atleta, mas também como ser humano. O esporte pode salvar vidas, e você está limitando isso (ao impedir trans de competirem). Não temos como proibir a pessoa de ser e fazer o que ela ama. Ana Marcela fala sobre participação de mulheres trans no esporte Como foi a experiência de competir no Rio Sena, com toda aquela polêmica de água suja nas Olimpíadas de Paris? - Foi muito mais a insegurança de não saber se a água estava limpa, pensando até na questão da saúde do atleta. A diferença entre Paris e Rio foi que tivemos a despoluição da Baía de Guanabara, com a comprovação de que a água estava boa para a competição das Olimpíadas. Na França, estavam havia quatro anos sem conseguir mostrar que houve de fato a despoluição. Não tivemos evento-teste para Paris, porque a água estava imprópria. Ficava uma desconfiança. Cancelaram também a prova das Olimpíadas e remarcaram para o dia seguinte. Mas, se não pôde ter a prova hoje, como estará liberada amanhã? Quando caí no Sena, foi já no dia da competição. Eu não tinha sentido a corrente antes, por medo de ter alguma questão de saúde. Como atleta, você fica naquela apreensão de poder nadar, competir. Só que, na hora em que confirmaram a prova, não me preocupei com o pós. Depois, graças a Deus, não tive nada, mas conheço gente que foi ao hospital no dia seguinte. Sujeira do Rio Sena chamou atenção na Maratona Aquática Mehmet Murat Onel/Anadolu via Getty Images Como foi realizar seu sonho de cruzar o Canal da Mancha? - Não imaginei que o pós-Canal seria essa coisa toda, com tanta importância dada. Poucas pessoas conhecem esse desafio, a história do canal. Fiquei surpresa com a repercussão. Fico feliz por cumprir o desafio e mostrar que outros brasileiros também já tinham feito isso. São mais de 15 brasileiros que vão tentar cruzar o Canal nos próximos dois anos. Não estava preocupada com o recorde justamente por isso, por depender da força da maré. A mudança de corrente interfere muito na natação. O canal é o Everest das maratonas aquáticas. Só os predestinados conseguem concluir. Realizar meu sonho de infância num dia perfeito, com sol e pouco vento... Foram mais de 50 dias sem chover no verão de Londres. Foi uma janela perfeita. A água estava em 18, 19 graus, uma temperatura que me permite nadar num bom ritmo, sem sentir frio extremo. Era para ser assim. Foi o dia mais perfeito que eu poderia ter. Ana Marcela Cunha atravessa o Canal da Mancha Jonne Roriz/COB Passada a travessia do Canal da Mancha, você volta o foco para as Olimpíadas de Los Angeles? - Posso falar que sim. Estamos numa parte difícil dos treinos, porque fiz uma quilometragem muito alta para a travessia do Canal e estou tentando reencontrar o ritmo para nadar os 10km, voltando a uns treinos mais explosivos. Temos já os Jogos Sul-Americanos (em setembro, e Ana Marcela foi ouro), e as duas primeiras colocadas se classificarão para os Jogos Pan-Americanos. Los Angeles está ali já, não posso negar. Mas estou indo com uma coisinha de cada vez. Na primeira semana de novembro, teremos uma etapa de Copa do Mundo. Provavelmente vamos seguir direto, só parando de treinar em setembro do ano que vem, depois do Pan (em Lima). Em 2027, vêm os Jogos Pan-Americanos, Campeonato Mundial, que classifica as três primeiras para as Olimpíadas. Vamos tentar garantir a vaga olímpica o quanto antes, mas, mesmo se não for, teremos uma seletiva logo depois. Como você vê o momento da natação brasileira, tanto em águas abertas quanto na piscina? - A natação vive um momento diferente das águas abertas. Na natação, já temos algumas realidades, como (Guilherme) Caribé, Bia Dizotti, Maria Fernanda (Costa). São atletas estabelecidos nas seleções, com bons tempos, próximos do índice olímpico. Temos também o retorno da Etiene (Medeiros) e do João (Gomes Jr.). Ainda acredito muito na experiência do Nicholas (Santos), do Léo de Deus. É necessária a presença deles para o equilíbrio da nova geração. A natação é capaz de retornar e trazer novas medalhas para o Brasil. Temos atletas muito bons, qualidade para isso. Na maratona, no masculino, estamos ali sempre com uma alternância de nomes, com níveis parecidos. No feminino, falta ainda uma renovação. Tem a irmã da Vivi (Jungblut), a Cibelle, que ganhou os Jogos Pan-Americanos Júnior e está classificada para o Pan adulto. Isso é muito importante. Por um tempo, fomos eu e a Poliana, que se aposentou em 2017. Depois, veio a minha medalha em 2021, e a Vivi chegou junto também. Mas estamos aqui. Não tem muita troca. Para mim, não é bom falar que estou há 20 anos na seleção brasileira sem uma troca. Hoje, sou a única atleta ativa que participou das Olimpíadas de 2008. A renovação tinha que acontecer. Ela eleva o nível do país. A Confederação passou por muitas trocas de presidentes, com mentalidades e atitudes diferentes. Agora está conseguindo novamente se reerguer, com bons aliados e patrocinadores. Temos tudo para crescer. Futuro e aposentadoria: Ana Marcela fala sobre os próximos passos Você falou sobre a passagem de tempo na sua carreira. Como projeta o futuro? Já pensa na hora de parar? - Não penso na minha idade. Não fazia isso quando era mais nova. Para mim, idade foi um número que nunca considerei muito. Claro que, conforme ficamos mais velhos, o treino e a recuperação pesam mais. Eu não comecei com 20, 24 anos no alto rendimento. Muita gente fala: “Pô, Ana, você só tem 34 anos, dá para fazer outro ciclo olímpico e ir até Brisbane”. Eu até poderia ir, porque eu sempre digo que meu ponto de parar será quando eu não estiver mais feliz ou estiver me sacrificando para render. Tento explicar que já estou há 20 anos no alto rendimento, desde o Mundial de 2006, sempre me mantendo entre as 10, 15 melhores do mundo – com exceção daquele meu Mundial em 30º. É muito difícil ficar assim por tanto tempo. Como comecei muito nova e estou mais próxima da aposentadoria do que de participar das Olimpíadas de Brisbane. Uma coisinha de cada vez, querendo chegar a Los Angeles. Conte algo que ainda não sabemos sobre Ana Marcela. - Sou uma pessoa muito metódica, organizada. Sempre penso mais no próximo do que em mim mesma. Quero ajudar, dar oportunidade, fazer algo que eu não tive. Entro em várias vaquinhas por aí, saio ajudando, principalmente o pessoal do esporte. Não preciso falar muito, porque faço as coisas sem pensar no que as outras pessoas vão achar. Tenho um projeto em Pinheiral, por exemplo, e nem divulgo, porque não preciso levar mídia ou melhorar a minha imagem. Lá, temos aulas de hidroginástica para idosos, iniciação de natação. Minha vida é muito mais sobre propósito e o que eu posso fazer para ajudar o próximo. Gosto de ajudar sem receber nenhum tipo de reconhecimento ou bajulação pelo que estou fazendo. Tenho uma vida muito boa que o esporte me proporcionou. Tenho muito que nem preciso. O que vem a mais gosto de usar para ajudar alguém.
