Reconhecimento facial, leitura de digital e até escaneamento da íris já fazem parte da rotina de milhões de brasileiros. O que pouca gente percebe é que essas informações estão entre os dados mais sensíveis que existem e, diferente de uma senha comum, não podem ser alteradas caso vazem. Com o avanço da inteligência artificial e dos deepfakes, especialistas em segurança digital alertam que o uso indiscriminado da biometria pode abrir espaço para novos tipos de golpes, fraudes financeiras e roubo de identidade. Esse foi o tema do novo episódio do Podcast Canaltech, que recebeu Marta Schuh, diretora de Cyber & Tech Insurance da Howden Brasil, para discutir os impactos da biometria no dia a dia, os desafios da privacidade digital e os riscos do avanço acelerado da IA. - Entre no Canal do WhatsApp do Canaltech e fique por dentro das últimas notícias sobre tecnologia, lançamentos, dicas e tutoriais incríveis. - 🎧Ouça o Podcast Canaltech no Spotify 🎧Ouça o Podcast Canaltech na Deezer 🎧Ouça o Podcast Canaltech no Apple Podcasts A biometria já virou parte da rotina Hoje, desbloquear o celular com o rosto, acessar o banco pela digital ou entrar em prédios usando reconhecimento facial parece algo natural. Segundo Marta, a biometria deixou de ser apenas uma ferramenta de identificação e passou a funcionar como mecanismo de autenticação digital. Na prática, rosto, digital, voz e leitura da íris estão se tornando “senhas biológicas” utilizadas para validar identidades em serviços financeiros, aplicativos, aeroportos, empresas e sistemas corporativos. O problema é que a popularização dessas tecnologias aconteceu mais rápido do que a conscientização da população sobre os riscos envolvidos. IA e deepfakes mudaram o cenário Durante a entrevista, Marta explicou que a inteligência artificial já consegue reconstruir voz, entonação, padrões de fala e aparência com poucos minutos de material disponível online. Segundo ela, o Brasil ainda não viveu uma “grande onda” de deepfakes, mas o cenário deve mudar rapidamente nos próximos anos. A preocupação vai além de vídeos falsos na internet. A combinação entre IA e biometria pode facilitar golpes financeiros, abertura de contas fraudulentas e fraudes de identidade cada vez mais difíceis de identificar. A executiva compara o momento atual da inteligência artificial ao início da internet no fim dos anos 1990: uma tecnologia ainda em expansão, mas que deve transformar radicalmente a sociedade em pouco tempo. O que é o World ID? Outro tema abordado no episódio foi o crescimento de iniciativas como o World ID, projeto que utiliza biometria para criar uma espécie de identidade digital global. A ideia é centralizar validações biométricas para substituir gradualmente documentos físicos tradicionais. Segundo Marta, o conceito lembra processos já utilizados em aeroportos internacionais, principalmente nos Estados Unidos, onde parte da imigração já acontece por reconhecimento facial. Apesar do potencial de praticidade, ela defende cautela antes da adoção em larga escala. “O projeto é muito bonito na prática”, afirma a especialista durante a conversa, mas destaca que ainda faltam discussões importantes sobre segurança, privacidade e proteção dessas informações. O maior problema: dados biométricos não podem ser trocados Uma senha vazada pode ser alterada. O mesmo não acontece com rosto, digital ou íris. Esse é justamente um dos principais pontos de preocupação levantados durante a entrevista. Segundo Marta, o vazamento de biometria tem impacto permanente, porque esses dados acompanham a pessoa pela vida toda. Ela afirma que já evita fornecer biometria em diversos contextos do dia a dia, principalmente quando não existe clareza sobre como essas informações serão armazenadas ou protegidas. Empresas estão adotando biometria “por modismo” Segundo Marta Schuh, muitas empresas passaram a implementar reconhecimento facial simplesmente porque a tecnologia virou tendência. Ela cita casos de portarias, clínicas, academias e até apartamentos residenciais que passaram a exigir biometria sem necessidade operacional real. Na avaliação da especialista, esse comportamento aumenta a exposição dos usuários sem necessariamente trazer benefícios relevantes de segurança. Ela defende que empresas avaliem se o uso da biometria realmente faz sentido para a operação antes de assumir riscos envolvendo dados tão sensíveis. LGPD garante direito de recusa Durante o episódio, Marta também explicou que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica biometria como dado sensível. Isso significa que empresas precisam justificar a coleta dessas informações e demonstrar necessidade legítima para o armazenamento. Segundo ela, em muitos casos, usuários podem se recusar a fornecer reconhecimento facial quando existem outros meios válidos de identificação, como RG ou CNH. A especialista também lembra que a legislação prevê o chamado “direito ao esquecimento”, permitindo solicitar a exclusão dessas informações em determinadas situações. Segurança digital vai além da tecnologia Apesar da importância de ferramentas de proteção, Marta afirma que segurança digital depende principalmente de conscientização. Segundo ela, grande parte dos incidentes cibernéticos começa por falhas humanas, o que torna educação digital e treinamento tão importantes quanto investimentos em tecnologia. Ela defende que empresas passem a tratar segurança cibernética como parte estratégica do negócio — e não apenas como custo operacional. Onde a biometria realmente faz sentido Apesar das críticas ao uso excessivo, Marta reconhece que existem contextos em que a biometria pode trazer ganhos reais de segurança. Hospitais são um dos exemplos citados por ela durante a conversa. Segundo a especialista, ambientes de saúde frequentemente sofrem ataques cibernéticos e precisam de mecanismos rápidos de autenticação sem comprometer a operação médica. Para Marta, o desafio daqui para frente será equilibrar praticidade, segurança e privacidade em um cenário cada vez mais influenciado pela inteligência artificial. Leia a matéria no Canaltech.

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