O futebol sabe ser cruel. Ao menos, é o que deve estar pensando neste momento João Pedro, atacante do Chelsea. E ele terá suas razões. Porque, num raciocínio frio, será possível dizer que o jogador chamado por Fernando Diniz, Dorival Júnior e três vezes por Ancelotti, que brilhou no Brighton até chegar ao Chelsea, e que teve impacto imediato no Mundial de Clubes, perdeu o lugar para um atacante que, nos últimos três anos, teve imensas dificuldades para lidar com suas lesões e não teve grandes exibições. Ocorre que o futebol tem suas particularidades, e naturalmente Neymar não seria julgado como se fosse um desconhecido, ou um jogador em ascensão. Com ou sem razão, o futebol costuma respeitar status, história, ou mesmo a crença de que a Copa do Mundo será uma ocasião nobre o suficiente para fazer despertar um talento aprisionado num corpo que, ultimamente, não tem permitido a Neymar realizar feitos habituais em outros tempos. Ancelotti, ao decidir levar Neymar, certamente não o fez pelo que o astro do Santos jogou neste 2026. Mas pelo que a história mostra que um Neymar mais próximo do seu auge pode fazer. É, em parte, um exercício de fé. Veja momento em que Ancelotti anuncia a convocação de Neymar De certa forma, a comoção e a fé combinam com o jeito brasileiro de ver futebol. O país acredita na figura do herói, nas Copas do Mundo vencidas por um personagem superpoderoso. E Neymar, ainda que hoje não viva mais sua melhor versão, é o último grande ídolo fabricado no Brasil. É difícil imaginar que um treinador de seu status precisasse se conciliar com alguém. Mas, de todo modo, não custa reparar a festa instalada num ambiente controlado como o auditório da convocação, no meio da enorme festa em que foi transformado o anúncio da lista. Havia gente na porta gritando por Neymar. E Ancelotti, qualquer que seja o resultado da Copa, terá ainda mais quatro anos de Brasil pela frente, até a Copa de 2030. Levar Neymar à Copa é um peso na bagagem, mas não levá-lo seria atrair para si algum tipo de desconforto. Resta agora o debate sobre a função que o atacante terá na seleção brasileira. E, neste ponto, se há alguém habituado a lidar com todo tipo de estrela que o futebol mundial já produziu, este é Ancelotti. E aí está outra crença do italiano, ou uma certeza mesmo: se for preciso fazer com que Neymar viva a inédita experiência de iniciar jogos no banco, ele acredita estar pronto para controlar o ambiente. Há um risco, mas o treinador decidiu enfrentar. Segundo Ancelotti, Neymar é “um atacante central”. A resposta induz a pensar numa espécie de falso 9, um atacante que parte do centro do ataque e se move para receber a bola e lançar companheiros que ataquem espaços produzidos por ele próprio ao se movimentar. Em dado momento do trabalho de Ancelotti, Vinícius Júnior partiu do centro do ataque, mas a mudança por empurrar o jogador do Real Madrid para a esquerda, com Raphinha próximo a Neymar no centro e, na ponta direita, a possível presença de Luiz Henrique. Ou, ainda, com Matheus Cunha mais central, próximo a Neymar, e Raphinha ocupando o lado direito. Isso, é claro, caso Neymar ganhe um espaço como titular. A lista brasileira chama atenção por retratar, outra vez, traços da nossa escola atual. As opções das laterais, outrora um setor farto, envelheceram: Danilo tem 34 anos, Douglas Santos tem 32 e Alex Sandro tem 35, além de uma frequência indesejável de lesões recentes. O meio-campo tem poucas opções e uma dificuldade brasileira de produzir controladores de jogo. Casemiro chegará ao torneio com 34 anos, e seu reserva será Fabinho, de 32 anos e poucas atuações recentes que chamem atenção. No ataque, o país produz talentos, tanto que preencheu com jogadores de boa qualidade as lesões de Estevão e Rodrygo. O efeito colateral foi ter na lista nomes que são aparições mais recentes, pouco testados em grandes ocasiões. Havia pouquíssimas dúvidas a elucidar na convocação final. E ter Neymar numa Copa não chega a ser surpresa. Agora, o grande debate nacional será o seu papel no Mundial.
Full article body is being fetched in the background. Refresh in a moment to see the complete paragraphs. For now this page shows a summary and AI analysis.
